“Você não pode ser o que você não vê”: A representatividade da cultura negra em Homecoming.

(Photo by Kevin Winter/Getty Images for Coachella)

Por: Emilly Nascimento

“Eles não têm esperança. Eles são a esperança.”

 “Você não pode ser o que você não vê”. Representatividade – uma palavra com significados tão complexos e abrangentes que poderíamos ficar um dia inteiro apenas divagando sobre ela. Porém, em “Homecoming” Beyoncé além de mostrar seu lado humano para o público geral, também foca em mostrar e enaltecer a cultura negra. Carregando inúmeras referências que expõem como essa cultura foi marginalizada e injustiçada.

O documentário lançado no dia 17 de Abril na Netflix, se trata da performance completa da cantora no festival Coachella no ano de 2018. Além disso, mostra os bastidores, os ensaios, um pouco sobre a equipe e os significados implícitos da escolha de cada item na montagem do show.

Antes de começarmos a falar sobre o documentário em si, devo deixar claro o fenômeno que foi a apresentação de Beyoncé no festival. Pois, ela foi a primeira mulher negra a ser headliner do Coachella, que existe desde os anos 90. E isso por si só já é um grande retrato histórico. Mostrando como o racismo estrutural ainda existe e está presente em todas as camadas sociais.

A escolha do nome “Homecoming” foi dada para simbolizar o retorno da artista aos palcos. Além de fazer uma alusão as festas de “volta às aulas” que ocorrem todos os anos na maioria das instituições de ensino dos Estados Unidos. Reunindo veteranos, calouros e ex-alunos.

Dessa forma, a temática do espetáculo era de uma “Universidade para Negros”. Onde os afro-americanos eram os protagonistas. Por isso, o figurino, apetrechos, instrumentos, coreografias, absolutamente tudo remetem a esse estilo “fanfarra”. Uma curiosidade interessante contada por Matheus Negrão, formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Presbiteriana Mackenzie é que os tambores usados pela banda no show, outrora foram proibidos de serem utilizados nos Estados Unidos. E por isso, os negros tinham de aprender a tocar instrumentos de origem européia. Como por exemplo, o piano e o trompete. Beyoncé fez questão de usar muitos tambores em sua apresentação.

Outra curiosidade, é a de que os dançarinos quando fazem música batendo no próprio corpo, utilizando-o como instrumento musical. Fazem referência à essa proibição em relação aos negros e seus instrumentos.

A artista queria que todos os negros se sentissem representados em cima do palco do Coachella. Conhecido por ser um festival elitista e de maioria branca. E que isso ocorresse de forma natural, não superficial e estereotipada. Por isso, no longa, quando ela mostra um pouco de sua equipe de dançarinos, a cantora faz questão de deixar claro a singularidade de cada um. Explicitando que todos são humanos, têm problemas e sofreram com a segregação racial. Inclusive, há um momento em que eles são questionados se foram à Universidade, e muitos nem chegaram a terminar o ensino médio.

“Esse documentário é muito importante no sentido de mostrar as diferenças que existem nos Estados Unidos. Por exemplo, quando mostram que há essa divisão de universidade para negros e para brancos. A falta de oportunidades para negros é clara.”, observa Matheus Negrão. “A Beyoncé quis passar uma mensagem não só para o público. Mas também, para a indústria da música. A maioria dos artistas negros aprenderam a tocar instrumentos de brancos”, ressalta Matheus. Ele ainda diz que a artista quebra um paradigma enorme na indústria ao trazer instrumentistas, dançarinos e  falas negras para o seu show.

Ana Carolina Huertas, estudante negra de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie que está fazendo um intercâmbio em uma universidade nos Estados Unidos, contou como se sentiu acompanhando esse fenômeno “de perto”: “As faculdades negras dos EUA são chamadas de HBCU. A banda e as dancelines são uma característica muito forte, que representa muito pra eles. E ela levou isso para o palco do Coachella, a representatividade das universidades negras.”

A intercambista ainda reflete sobre uma frase que há no documentário: “Se você não se enxerga, você não acredita que você pode chegar lá. Se você não vê ninguém ocupando aquele espaço. Você não acredita que você pode ocupá-lo. Seja a Maju Coutinho no Jornal Nacional, ou a Beyoncé sendo headliner de um dos festivais mais brancos do mundo.”

“O que mais me deixou admirado e inspirado, foi ver a cultura negra sendo exaltada de forma natural. Não de uma forma imposta e ruim. E eu espero que o documentário inspire as pessoas a verem além de só música, de só a Beyoncé ou só os dançarinos, e sim, a história que todo esse trabalho traz.”, finaliza Matheus.

“A Beyoncé usa da influência dela e de seu espaço não só pra ir lá e brilhar como uma mulher negra. O que já seria um grande ato político, pois, ela como mulher negra e rica só de existir já é um tapa na cara da sociedade. Ainda sim, ela usa esse espaço pra representar e mostrar para a população uma história que muitas vezes foi apagada.”

Um dos pontos cruciais do documentário, é a exibição de como a Beyoncé queria mostrar para o mundo que aquilo não seria só um show, e sim uma mensagem. O longa exibe como ela teve muito cuidado com cada detalhe. Para que tudo saísse na mais perfeita ordem. Fazendo com que as pessoas absorvessem o recado. Ele traz uma reflexão sobre segregação racial e racismo estrutural. Além de tratar da questão da ocupação de espaços jamais preenchida antes por negros. Como se não bastasse, ainda conta com  a performance incrível de Beyoncé. Eleita a melhor artista viva da nossa geração. Por isso, vale muito a pena assistir.