Um quase cordel de um povo muito do arretado

Oito de outubro foi decretado, em São Paulo, o dia do nordestino. É a cidade que mais abriga nordestinos no Brasil. Sem contar o próprio Nordeste, é claro! Não se surpreenda, pois então, que o Mackenzie, uma das mais prestigiadas universidades privadas do país, tenha tantos alunos nordestinos.

 

Açucena sente falta mesmo é da praia. O mesmo pode-se  dizer de Samuel. Já Isabela não vê a hora de poder saborear novamente a verdadeira comida de sua terra.

 

Açucena é de Trancoso, Samuel de Teresina, Isabela de João Pessoa.

 

Cada um deles deixou o alento de suas famílias e amigos para estudar jornalismo em São Paulo. Bahia, Piauí, Paraíba, não importa. Nenhum deles teve dúvida em afirmar que o carisma caloroso do povo nordestinos é o que mais diferencia a região do restante do país.

 

Eu não sou nordestina, mas bem que gostaria de ser. A verdade é que não confio em ninguém que não se diga apaixonado por pelo menos um de seus nove estados.

 

As melhores férias da minha infância se passaram nas águas quentes do Nordeste.

 

Foi mais ou menos nessa época em que eu criei a irracional ideia de que Porto Seguro tinha cheiro de pitanga.

 

Cheiro de Porto Seguro.

 

Por mais que eu amasse Porto Seguro, foi João Pessoa que ganhou o coração de painho. Esse se tornou seu maior sonho:  se mudar com a família para a Paraíba.

 

Seu tempo de vida acabou antes do esperado e, com isso, ficou apenas um projeto não realizado.

 

Pra acalentar meu coração, mãinha resolveu me levar pra conhecer Natal. Doze quilômetros ao sul de capital potiguar encontra-se o maior cajueiro do mundo. Mãinha me contou que lá nada tinha a ver com o aniversario de Cristo. Mas se eu fosse Maria, era lá que eu teria parido. Era lá que, então, queria eu me esconder da dor doída de uma morte morrida.

 

Eu e meu pai refugiados nos braços daquele imenso cajueiro.

 

O curioso é que, não muito tempo depois, minha irmã se casou com um paraibano porreta e se mudou pra João Pessoa. Foi lá que o sobrinho meu nasceu. E é lá que eu me sinto em casa. Comendo muito camarão e bolo de macaxeira. Tostando o corpo no sol escaldante. Bebendo suco de caju.

 

Foi no interior do Ceará a última aventura minha. Eu e um amigo. Cada um com sua mochila.

 

Lá, conhecemos Lucilene. A cearense Lucilene.

 

Lucilene nos contava suas histórias malucas e fazia nossa barriga doer de tanto rir, enquanto escutávamos Lamento Sertanejo. Contou-nos, certa vez, de quando pegou chicungunha e das terríveis dores crônicas que sentia nas articulações. Falava isso com um ingênuo sorriso no rosto.

 

Lucilene era a pessoa mais alto astral daquele hostel. Me envergonhei por todas as minhas dúvidas existenciais.

 

Mas como era bom me perder nas dunas do Ceará. O vento soprava uma areia fina e infinita sobre minha canga. Eu me irritava e xingava o vazio. Batia a areia da canga e me deitava novamente.

 

Esse ritual se repetia o dia inteiro, até o céu azul-turquesa escurecer e virar estrela.

 

Longe disso tudo, nessa selva de pedra, eu me sinto só. Sinto falta da areia irritante. Sinto falta de Lucilene. Sinto falta até mesmo do sargaço roçando em meus pés na borda do mar, como se implorasse pra eu ficar.

 

Eu sou uma garota do Sul, que mora no Sudeste, mas que só quer mesmo é ir pro Nordeste.

 

É na terra de Caetano, Bethânia e Gal que eu encontro meu conforto. Bendita terra de fazer poetas e poesias! Terra de Jorge Amado. Terra de Suassuna. Terra de Glauber Rocha.

 

Terra sofrida, mas sincera. Terra com os maiores índices de pobreza. Mas com os seres mais ricos do planeta!

 

Ricos de alma. Ricos de felicidade. Ricos de espontaneidade.

 

Eu amo o Nordeste por suas praias paradisíacas, por suas comidas inigualáveis, por sua cultura única e sua história secular. Eu amo seus inúmeros sotaques.

 

Uns mais cantados, outros menos. Alguns com chiados, outros sem. Com uma velocidade de lebre ou uma calmaria de monge.

 

E as suas expressões! Oxe, oxente, muléstia. Porreta! É não?

 

Mas, acima de tudo, eu amo o Nordeste pelo povo nordestino. Amo seu senso de humor afiado. Amo sua vitalidade. Amo sua criatividade.

 

Eu o amo com emoção.

 

Você, nordestino, sinta-se orgulhoso! Você tem o privilégio de morar aonde eu e tantas outras pessoas passam suas férias.

 

Oxe, você tem o privilégio de ser um nordestino arretado!

Texto por: Amanda Pickler

Agradecimentos:

Açucena Barreto de Jesus – aluna do primeiro semestre de Jornalismo do Mackenzie.

Samuel José de Melo Soares – aluno do primeiro semestre de Jornalismo do Mackenzie.

Isabela Lins – aluna do terceiro semestre de Jornalismo do Mackenzie.

Texto por: Amanda Pickler

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