Resenha: Morreste-me

No ano passado, procurando algo que me fascinasse em uma livraria fui encontrado por livro que em pouco mais de sessenta páginas conquistou o conceituadíssimo título de “melhor livro que li em 2017.” Trata-se de Morreste-me, do português José Luís Peixoto, publicado em 2000 em Portugal, mas lançado há apenas três anos no Brasil.

José Luís Peixoto é mais um dos grandes nomes da boa geração de escritores lusófonos da atualidade. O autor, aos 27 anos, tornou-se a pessoa mais jovem a receber o (agora sim, importante) prêmio José Saramago. Sobre ele, disse o próprio Saramago: “Uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa. É um homem que sabe escrever e que vai ser o continuador dos grandes escritores.” Foi com Morreste-me que o português iniciou sua trajetória literária.

O livro é único. Jamais tinha lido algo semelhante. A temática da ausência e da morte é abordada desde o título, mas nunca antes havia visto alguém descrever e materializar o luto com tanta minúcia e precisão. Por meio de uma narrativa extremamente melancólica, José Luís conta suas memórias sobre a experiência com doença e morte de seu pai.

A narrativa é curta e poética. É uma daquelas obras que te prendem desde a primeira página. É o tipo de livro que em poucas horas é lido por completo, no entanto, o difícil é conseguir lê-lo em tão pouco tempo. As finas páginas são densas, carregadas de melancolia e tristeza. As palavras escolhidas minuciosamente para descrever a ausência do pai do autor, são capazes de evocar ao leitor as memórias mais vivas de pessoas próximas que já nos deixaram.

“Chora chove alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.”

[Trecho, Morreste-me]

É um livro forte, escrito para ser sentido. Uma obra marcante, capaz de resgatar as lembranças mais subjetivas já vivenciadas. Morreste-me é triste, lúgubre, melancólico, fúnebre, soturno e poético.

 

Clique aqui para ler uma resenha sobre “A Cidade do Sol”.

Matheus de Siqueira Nunes

Um apaixonado por futebol, que assiste basquete semanalmente, joga truco ocasionalmente e tenta viver poeticamente…