Literatura

“O papel é a pele de todos”

“Talvez ela cumpra uma certa função, que as outras coisas não cumpram. Tem uma diferença de ferramentas, porque ela se adapta as situações” comenta Renato Modernell, 63, sobre a Literatura.

Jornalista, escritor e professor do Mackenzie, Modernell conta sobre a rotina de quando trabalhava em revistas. Ele já fez parte da redação da Quatro Rodas, Época, Caminhos da Terra e Cláudia. E, ao longo dos anos passou por diversas situações, bem como conheceu pessoas e lugares que o marcaram.

Desde a visita a usina atômica de Angra dos Reis, a cobertura de uma Copa do Mundo, e até mesmo uma entrevista com Jorge Luis Borges, o jornalista se mostra agradecido pelo que passou. “O jornalismo acaba dando um salvo-conduto, de você chegar nesses lugares, mesmo que o trabalho em si não seja tão importante. Foram muitos e eu sou grato. Acho que foi a profissão certa na hora certa.”

Atualmente, porém, ele está afastado das pautas e notícias. Pelo menos, diretamente. Afinal, ministra aulas no curso de jornalismo, e escreve livros. O próximo, inclusive, será uma coletânea de reportagens de viagens que fez.

Com relação ao papel de seus livros na sociedade, Modernell relata: “Meus livros não tem papel nenhum. São feitos de papel, mas não têm nenhum papel. Eu acho que a função dos meus livros é me dar satisfação em escrevê-los, se der a outros, é lucro.”

Já suas expectativas para a Literatura atual, em uma época em que o entretenimento parece prevalecer sobre a crítica social, ele comenta: “Isso eu acho que nem eu, nem ninguém tem uma noção clara dos tempos em que a gente vive. Essa época que estamos vivendo vai ser entendida melhor daqui 30, 40 anos. As coisas feitas para distração sempre existiram em todas as épocas, em grau que não conseguimos medir.”

Para ele, são as pessoas, mais especificamente, uma pequena parcela da população que faz a Literatura ser como é. “Todas as gerações possuem uma parcela pequena que acha que a vida não é um programa de auditório. Essas pessoas, embora com poder limitado estatisticamente, tem um poder residual, que é o que vai permanecer. Sempre têm essas pessoas. Não é só na Escandinávia, é na África também. Mesmo na época em que se lia mais, eram poucos os que liam. De repente acontece de 3 ou 4 em uma sala ler Saramago. Nos anos 70 também era assim.”

E deixa, ainda uma reflexão sobre a permanência das palavras. “As coisas se compõem. A literatura está há 2 mil anos fazendo isso, adaptando-se a uma coisa nova que chega, desde o papiro ao papel, depois a tela digital. Agora, as pessoas não contentes com isso, escrevem coisas na pele. Se a permanência daquilo que se escreve não fosse importante por alguma razão, então por que os jovens que ficam no Facebook o dia todo escrevem coisas na pele? Talvez por aflição de isso ser tão fácil de quebrar. A literatura representa a permanência de algo, como a tatuagem. Acho que não basta a rotação de imagens e palavras que a internet dá, precisamos de movimentos mais lentos. Você sabe que isso custa caro, que demora. Por que você faz então? Talvez porque acredite que têm certas coisas que precisam ficar mais tempo. O papel é a pele de todos.”