Quem veste as calças?!

Durante décadas as mulheres foram obrigadas a usarem vestimentas que dissessem quem elas eram e a qual classe elas pertenciam. Saia bufantes, corpetes apertados, tule, renda. Tendências e tecidos que não eram feitos pensados no conforto, mas sim em aflorar a sexualidade feminina.

Graças a isso, as mulheres desempenhavam menos funções no cotidiano, pois é muito mais difícil executar qualquer tarefa com o seu peso em tecido grudado da cintura para baixo. Até andar de bicicleta e cavalgar – atividades muito mais rotineiras nos séculos passados – não eram feitas pela ala feminina. Graças a isso, em meados do século IXI, foi criada um tipo de calça tão bufante que era praticamente uma saia dividida. A calça bloomer foi assim nomeada em homenagem a jornalista e militante feminista Amelia Bloomer.

Em Paris, no ano de 1800, foi sancionada uma lei que proibia o uso de calças por mulheres. A data da última aplicação da lei foi em 1930, quando a atleta Violette Morris teve suas medalhas retiradas por usar o ‘traje masculino’. Entretanto, a lei só foi derrubada em 2003.

As calças começam a aparecer no vestuário feminino a partir da primeira década do século passado. O famoso estilista francês Paul Poiret, o maior nome da moda na época, apresentou em seus desfiles a calça odalisca e a turca, de inspiração oriental. Eram modelos folgados, de tecidos leves, e com a barra ajustada ao tornozelo. Poiret também aboliu os terríveis espartilhos e inspirou nas linha retas da art déco, bem mais confortáveis que as tendências do século anterior. A intenção dele era quebrar com o conceito de sensualidade e dar espaço ao conforto. 

Quem iria, entretanto, dar mais força ao uso da calça comprida feminina seria Coco Chanel. A francesa revolucionou a moda simplificando as modelagens e mudando o conceito de elegância. A francesa soube entender os novos anseios e necessidades das mulheres ao fim da I Guerra Mundial, período em que as mulheres começaram a tomar as frentes financeiras de suas vidas, já que muitos de seus companheiros padeceram no conflito. Assim como os modelos de saias que deixavam parte das pernas de fora, as calças compridas foram consideradas escandalosas na época.

Para a estudante de design da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Ana Júlia Souza, 18 anos, a moda é um fator de forte influencia no feminismo e na luta de emancipação feminina. “Ainda que hoje a indústria têxtil dite muitos padrões, eles

foram fundamentais no processo da quebra de barreiras para as mulheres usassem calças e roupas consideradas masculinas”. Mesmo que o processo tenha sido longo e cheio de obstáculos, o hoje é muito gratificante. Ainda que exista um caminho enorme a ser percorrido pela moda em prol da mulher – caminho esse que já está sendo trilhado – hoje, a calça é peça integral no dia a dia de todas.

Para Ana Júlia, o cinema também teve um papel importante nesse filme, afinal, muito que é visto nas telonas é copiado pelo público. Atrizes como Marlene Dietrich, Katherine Hepburn e Greta Garbo ajudaram a popularizar a peça. “ Dietrich foi uma das primeiras mulheres a aparecer de calças compridas em público, nos anos 20, marcando época ao surgir vestindo um smoking impecável e cartola na estreia do filme Marrocos, em 1930”.

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Texto de Raphaela Bellinati.

Isabella Massoud
Apaixonada por semanas de moda. Acredito que na vida, tudo tem uma razão e tempo certo para acontecer.