Quem tem medo do Zé Ninguém?

É na avenida paulista que eu vejo a cara do Brasil. Os prédios tão altos que parecem chuva em dia de granizo. A selva de pedra que dá alento aos miseráveis. Aliás, e os miseráveis? Desmaiados no meio da multidão e seus corpos caídos contornados como bueiros interditados. Já fazem parte da paisagem. É o que dizem…

População em situação de rua, pedinte, necessitado, mendigo. MEN-DI-GO ou MEN-DIN-GO? O famoso Zé Ninguém. Mas quem é Zé? Por debaixo do cobertor maltrapilho, da pele encardida, dos pelos animalescos, dos dentes pretos, quem é Zé? No fundo de sua alma, o Zé Ninguém seria um Zé Pequeno ou um Zé de Alencar?

Ninguém na verdade se importa com o Zé. Aliás, ninguém realmente lembra da existência do Zé até se ver confrontado pelo afronte de uma aproximação mais direta – o famoso: “Tem um dinheirinho pra me dar, moça?”

O Zé que na verdade é João, Maria e por que não um Carlos Eduardo?

Afinal, quem é Zé? E os seus sonhos roubados? E as suas lamúrias? Qualé o desejo do Zé? Me falaram por aí que é vagabundo que não quer trabalhar. Mal sabem eles que tem Zé que até rei já foi! Tem Zé que já foi como eles. O Zé sou eu daqui alguns anos, quem sabe? E como é que vou saber?

Como alguém se torna Zé Ninguém? Uma metamorfose kafkiana? Ou é amor desses de verdade? Amor pelas ruas? Pelas esquinas da vida? Talvez um asfalto gelado seja melhor do que a solidão de quatro paredes. Viver sob um céu (estrelado) ao lado de um companheiro vira-lata pode ser o paraíso.

Mas e a saudade quando aperta? O Zé também é filho, irmão, pai. E será que o Zé ainda se apaixona? Será que alguém se apaixona pelo Zé? Tem gente que tem medo do Zé…

Mas e o Zé, será que tem medo da gente?

 

 

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Amanda Pickler

Curitibana, atriz e estudante de jornalismo. Amo uma boa música de fossa, filme europeu que ninguém entende e livro de sebo daqueles que cheira a mofo.