Por onde anda a empatia?

Tempo seco, parecia verão em pleno inverno – um céu azul imenso. Os carros se amontoavam num congestinamento: a pista sentido Rebouças da Consolação fechada pela CET. Na pequena Caio Prado, em frente ao Parque Augusta, uma senhora salta aos meus olhos se banhando na água da nascente ao lado que corre na guia da calçada. Com sabonete em mãos, ela tenta diminuir o pretume dos pés e garantir um pouco de higiene em seu íntimo. As pessoas dentro dos carros passavam sem se incomodar. O que causava um pouco de comoção era mais a pista fechada do que a senhora. Passei com os olhos tristes, sem poder ajudar. Contudo, ao menos reconhecendo a existência daquele ser.

No dia anterior, deparei-me no trabalho com a história de uma senhora que expunha mais do que um cartaz  de caligrafia torta, expunha suas vísceras buscando ajuda para um filho preso: estava vendendo um rim ou um pulmão em plena Paulista, em pleno batimento de coração, à luz do dia, à luz de sua pobreza. 70 anos tinha e carregava no bolso um salário de quinhentos reais  para passar o mês, que ganha como diarista. Parte primordial daquela senhora seria vendida por quinze mil.

Histórias duras, histórias poucas das que já vi, ouvi e vivi. O olhar parece fugir dessas pessoas. Miram nos partidos, nos governos, nas ações, contudo o olhar não se humaniza, não se incandesce sobre essas pessoas. Temos a incrível capacidade de tirar do campo de visão milhões castigados por uma organização social que precisa castigá-los para se manter de pé. Que prefere vociferar a eles e as suas crias –  que às vezes se subvertem frente à pobreza- “vagabundos”, “profanos”, “inimigos dos cidadãos de bem”. Pessoas que carregam o estigma da cor, da moradia, de nascer sob uma casta e se ver preso à miséria por isso.

Olhem por essas pessoas. Olhem para essas pessoas. Sintam em sua pele seus calos e dores.

Empatia é o primeiro grande passo para uma revolução.