Pollock que me perdoe

Sou um respingo de tinta num quadro. Só isso, não me acho nada demais. Quando cheguei ao museu, passava meio despercebido do lado de um outro quadro mais antigo e famoso, nem vale a pena dizer sobre ele, nossos criadores não se bicam muito. Ok, ele é do Pollock, número 5. Com o tempo, enquanto as pessoas esperavam numa fila para vê-lo, perceberam-me pequeno e simples,10 por 15 centímetros que mais parece uma foto 3×4 ao lado daquele gigantesco quadro. Agora tenho mais visibilidade já que ele saiu daqui do museu faz um tempinho e um incidente me deixou mais “famoso” aqui nessa área. Num dia intenso de chuva, uma parte do forro do teto caiu em cima de mim e só foram me encontrar embaixo dos destroços na manhã seguinte, mas nada que uma boa restauração não conseguisse resolver. Tiraram até algumas rachaduras da minha tinta, que denunciavam minha idade.

Adoro perceber e analisar as pessoas que passam por mim. Crianças em excursão aparecem com grande frequência por aqui e muitas já tentaram colocar o dedo (ou chiclete) em mim. Senhores de idade são mais simpáticos: gosto de perceber como os cabelos brancos surgem com o tempo ou como o nariz e orelha crescem proporcionalmente até o final da vida. Eles sempre me dedicam um tempo a mais para me olhar, tentando achar a resposta que procuram, apenas relaxar, lembrar de momentos da vida ou até mesmo tentar entender o que significo. O que ninguém sabe é que na realidade eu sou apenas um respingo de tinta que caiu no lugar certo e na hora certa enquanto meu criador mudava as cores das paredes de seu ateliê. Sou um erro que ficou bonito, simétrico e harmônico naquele espaço branco. Foi pura sorte.

 

Foto por: Guilherme Rossi