Passa-Tempo

Não queria mais uma noite mal dormida. Mal dormida não por causa de sonhos ou pesadelos, esses que a intrigavam muito, a faziam pensar e procurar significados o dia inteiro; mas mal dormida pois se encolhia toda num canto de sua cama de casal, parecia até que esperava um alguém para deitar-se do seu lado. Estava cansada de acordar com os músculos dos ombros doloridos e tensos, sem contar o joelho doente que rangia como uma porta que não abria há meses.

Como não queria mais uma noite mal dormida decidiu que não dormiria. Faria coisas necessárias, ou se não existisse nada a fazer, faria as coisas desnecessárias. A última opção de todas era a televisão, odiava televisão, mas gostava de novelas. Ela era toda assim, meio-a-meio, nunca odiava por inteiro. O problema de ser assim é que tinham dois lados: do mesmo jeito que não odiava por inteiro, não amava por inteiro. Não o amor filial ou maternal – esses tipos de amor são completos, não existem pela metade nem em Sofia. Sofia é o nome dela pois sua mãe quisera que ela tivesse bastante sabedoria – “sofia” vem do grego e significa sabedoria – felizmente seu desejo fora atendido.

Mas quem não gosta de ser inconsequente em algum momento da vida? Ou melhor, alguns momentos da vida. Aí então ela ficava meio-a-meio, como o usual, e às vezes era inconsequente, mas só às vezes.

Sofia, que pensara tudo isso enquanto estivera deitada, levantara e fora buscar um copo d’água. Sentou na mesa de jantar – queria ficar com a postura bem ereta para nenhum músculo dormir – abriu seu notebook e revistas de decoração, decidira que iria mudar todos os móveis de sua casa, começando pela cadeira da mesa de jantar que eram muito duras. Pesquisou móveis prontos, madeiras, racks, armários, camas, sofás, poltronas, cômodas, espelhos e coisinhas bobas de decoração, queria uma casa nova. Ainda que Sofia não tivesse um bom gosto em decoração no passado, de tanto gostar do assunto, havia o adquirido.

Começou a tirar foto de seus próprios móveis para vendê-los. Gostaria de mandar mensagens para seus amigos e amigos de amigos para divulgar suas vendas, mas – susto! – eram 3 horas da manhã. Continuou tirando fotos até chegar ao último móvel e cair no sofá de cansaço.

Desistiu das vendas, cansava-a. Talvez depois retomasse. A dor de um esforço em vão não contava muito para ela.

Não queria ler um livro, mas era a sua última opção antes da televisão. E ainda queria contemplar o nascer do sol. Havia tanto tempo que não o via! Sem contar que saíra da sua rotina completamente, era uma quarta-feira e estava acordada às – susto! – 4 horas da manhã.

Sentou-se na sua poltrona já pensando em seus futuros músculos adormecidos e joelhos rangendo pela falta de uso, abriu um livro de capa e título nada memoráveis e começou a ler.

Às 5 horas da manhã, enquanto o sol nascia, via-se Sofia com a boca um pouco aberta e a cabeça encostada na poltrona, dormindo.