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O que “Sintonia” tem a dizer sobre as periferias?

Texto: Patrícia Vilas Boas

Estreou em 09 de agosto, a nova série da Netflix “Sintonia”, criada e dirigida pelo produtor e empresário Kondzilla. A trama gira em torno da história de três jovens moradores da favela. Doni (João Pedro Carvalho), Nando (Christian Malheiros) e Rita (Bruna Mascarenhas) são amigos desde a infância. São protagonistas unidos pela comunidade, mas que tomam rumos distintos na vida com o passar dos anos.

Para entender como a história dos personagens é desenvolvida, é importante saber qual a posição de cada um dentro do enredo.

Rita é uma garota que perdeu a mãe muito cedo e ganha a vida com o comércio ilegal, mas seu papel como transgressora da lei dura pouco na série. Logo nos primeiros capítulos ela enxerga a Igreja como uma alternativa para mudar de vida.

Nando, ainda que jovem, já é pai e sustenta sua família com o dinheiro do tráfico. Ele se vê obrigado a realizar tarefas contra sua vontade para crescer dentro do grupo e ascender no negócio ilegal.

Donizetti, conhecido como Doni, é o “bem de vida” do trio. Morando com os pais e matriculado em colégio particular, o jovem sonha em se tornar cantor de funk, ainda que isso seja contra a vontade de seu pai. Este, Seu Chico (Vanderlei Bernadino), prefere que o garoto se concentre nos estudos e gaste seu tempo livre o ajudando em sua mercearia ao invés de se dedicar à música.

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Bruna Mascarenhas era moradora do Rio de Janeiro e se mudou para São Paulo, quando foi contratada pela produção da Netflix para dar vida à protagonista Rita. (Créditos: Pinterest)

 

A série impressiona pela semelhança com a realidade das comunidades. Diferentemente das demais obras, a trama evita mergulhar nos mesmos estereótipos de representação da favela e nos mostra o outro lado dos extremos. De um modo mais humanizado e verossímil, sem precisar romantizar. “Sintonia” tem como palco a cidade de São Paulo. Sua ambientação é muitas vezes retratada em novelas e grandes produções de maneira falha já neste caso é muito fiel ao proposto e consegue explorar bem o cenário de residências e bairros periféricos. O enredo também está sempre dialogando com situações reais que acontecem no cotidiano. Talvez, o segredo tenha sido Kondzilla basear seus protagonistas em pessoas autênticas e nas suas próprias vivências.

Confesso que, antes de assistir, imaginei mais uma daquelas narrativas carregadas de vulgaridade e generalizações. Imaginei a série difamando a imagem da periferia e retratando-a como um espaço violento e hostil. Mas o que eu vi foi uma tentativa de levar o olhar da favela para o mundo e trazer um sentimento de identificação para quem reside, ou já residiu, dentro dos subúrbios. Já conversei com muitos Donis, conheci alguns Nandos e fui amiga de várias Ritas. No final, esta é a palavra-chave da série: representatividade.

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João Pedro Carvalho, ou MC Jottapê, já seguia carreira no funk antes de começar a atuar na série. (Créditos: Pinterest)

A trama, entretanto, peca no excesso de gírias. Evidentemente eles tentam retratar o dialeto suburbano, mas o seu uso excessivo acaba tirando a naturalidade dos diálogos. Não que elas não existam, longe disso, as gírias são marcas da cultura periférica que se expandiram por meio do funk, rap e hip hop a todo o país, inclusive aos centros. Porém, é usada em exagero e algumas são desconhecidas até mesmo dentro da comunidade. Ainda assim, não é algo que comprometa o entendimento dos episódios. O mercado de produção musical também é retratado na série, que conta com trilha sonora original, além da participação de MC’s tanto na atuação (participação especial) quanto nas músicas.

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Christian Malheiros, o Nando de ‘Sintonia’, já venceu o prêmio de Melhor Ator por seu papel no longa nacional Sócrates, de 2018. (Créditos: Pinterest)

Inovando, “Sintonia” é a primeira série original da Netflix a ter seus episódios disponibilizados gratuitamente no YouTube, no próprio canal do Kondzilla. Sua iniciativa é um passo para oferecer acesso ao conteúdo àqueles que não possuem assinatura na plataforma de streaming. A série traz visibilidade à periferia sem abordá-la de forma clichê ou negativa. Uma oportunidade para poder tratar de assuntos delicados e reais sem espetacularização. Quem vive vai se identificar assistindo, e quem não conhece vai aprender com ela.

Vem dar uma olhada no último texto da ETC e Tal que está incrível !