O que levou a Venezuela ao caos?

Entenda um pouco mais sobre a crise que está atingindo a nação que faz fronteira com o Brasil.

Ultimamente temos lido e ouvido muitas notícias à respeito da crise que assombra a Venezuela. Muitos fatores contribuíram para que o país chegasse a esse ponto. Atualmente a Venezuela está um verdadeiro caos. Mortes em protestos, pessoas desempregadas, crianças morrendo de fome e uma legião de venezuelanos deixando a nação em busca de uma vida melhor…. Infelizmente são cenas comuns no cotidiano do país.

Crise no Petróleo

O primeiro fator que podemos citar aqui é a crise no petróleo. O recurso natural corresponde a cerca de 96% das exportações venezuelanas. Dessa forma, o petróleo se tornou protagonista da economia da Venezuela. Em 2013 o país chegou a arrecadar por volta de US$750 bilhões de dólares com as exportações do recurso. Porém, em 2014 por conta de alguns fatores externos envolvendo o Irã e Arábia Saudita, que também são dois grandes exportadores do recurso. E com os Estados Unidos aumentando seus investimentos no método “fracking” para produzir energia. O preço do petróleo obteve grande queda. Consequentemente a Venezuela reduziu o seu número de vendas e começou a diminuir a extração de petróleo.

A estatal que gerencia a exploração do recurso no país é a PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A), a qual tem exclusividade. A empresa está envolvida em diversos casos de corrupção e lavagem de dinheiro. E isso também contribuiu para a queda de extração e exportação. Outro fator que não teve os resultados planejados e, também prejudicou o país nesse sentido foi a criação da aliança Petrocaribe. Ela compromete a Venezuela a vender petróleo por preços mais baixos para países caribenhos aliados ao chavismo.  

Dependência das importações

Como citamos acima, o petróleo é praticamente a base da economia venezuelana e por conta disso muitos governantes deixaram de lado o desenvolvimento agrícola e industrial da nação. Além disso, sob a posse do presidente Hugo Chávez, muitas indústrias de cimento e aço foram nacionalizadas, entretanto, outras empresas e propriedades rurais foram desapropriadas. E para não se prejudicar, o setor privado começou a optar por substituir suas produções próprias por importações mais baratas.

Conforme o tempo foi passando, a Venezuela foi cada vez mais se tornando dependente das importações, importava desde alimentos e medicamentos até peças importantes para a manutenção do metrô das metrópoles. Com a baixa nas exportações, o país foi perdendo dinheiro para importação e consequentemente surgiram as crises de desabastecimento, que acarretaram na falta de itens extremamente básicos para a subsistência da população. A fome começou a aumentar no país.

A nação também começou a controlar a compra de dólares pela população, para tentar equilibrar o valor da moeda local (bolívar). Essa política cambial fez com que aumentasse os casos de corrupção, criou-se um mercado paralelo para administrar o desvio de dólares. O sistema econômico venezuelano já estava com problemas e o câmbio ilegal só contribuiu para prejudicá-lo ainda mais. Hugo Chávez deu mais valor a moeda local do que as estrangeiras, por isso era mais vantajoso para o produtor local importar produtos do que produzir. Por conseguinte, a dívida externa e os gastos públicos foram aumentando cada vez mais.

Essa supervalorização do bolívar cooperou para a hiperinflação. A população precisava de muito dinheiro em mãos para comprar coisas simples do cotidiano, como por exemplo alimento e produtos de higiene. Os cidadãos tiveram de começar a andar com centenas de cédulas da moeda venezuelana, e por conta disso, as cédulas começaram a faltar e nem sempre as pessoas conseguiam sacar dinheiro.Dessa forma, o comércio era obrigado a vender os seus produtos por um preço bem abaixo do que foi gasto para produção. Por isso, muitos começaram a falir.  Consequentemente, pessoas perderam seus empregos e a pobreza foi aumentando.

Chavismo x Oposição

Na Venezuela existem dois lados: o dos chavistas e o da oposição. Os chavistas baseiam seu poder no militarismo, apoiam uma atuação maior do Estado e seguem uma linha “anti-imperialista”, a qual apoia a união dos países sul-americanos para combater a influência dos Estados Unidos no território. No chavismo (estilo de governo baseado no ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez), as forças armadas têm forte controle na gestão do Estado. Ademais, os militares são um terço do gabinete de ministros de Maduro e estão presentes inclusive na petroleira PDVSA que teve seu corpo técnico alterado para a ocupação de militares nos principais cargos.

Outro fator que contribuiu para essa crise venezuelana foi o controle da imprensa. Veículos considerados de oposição foram comprados por chavistas e outros chegaram a ser fechados. Os chavistas reprimiram a distribuição de papel-jornal para a linha editorial dos opositores. Além de que o governo controla a importação e distribuição dos impressos.

Quando Nícolas Maduro começou a governar o país, a Venezuela já estava em um estado crítico. E as decisões tomadas por ele só contribuíram para que essa instabilidade aumentasse.  Em maio de 2017, Maduro convocou eleições para redigir uma nova constituição. E grande parte da população se revoltou, fazendo com que o país passasse por uma fase de protestos muito violenta. Onde mais de 120 pessoas morreram e cerca de 2 mil pessoas ficaram feridas.

No ano de 2018, Nícolas Maduro foi reeleito com cerca de 68% dos votos. A eleição foi contestada tanto dentro quanto fora do país. O governo foi acusado pela oposição de comprar votos. Portanto, a OEA (Organização dos Estados Americanos) solicitou a suspensão da Venezuela da entidade. Ou seja, essa suspensão explicita que todas as nações americanas acreditam que a Venezuela não mantém a ordem democrática. Esse fato ocorreu logo após o até então líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autodeclarar presidente interino da Venezuela. Desde então, mais de 50 nações, incluindo o Brasil, reconhecem Guaidó como presidente. Porém, ainda há alguns países que seguem apoiando o governo de Maduro.

Neste mesmo ano de 2018, especificamente no mês de agosto, os Estados Unidos impuseram sanções econômicas ao país. Como o país norte-americano atualmente governado por Donald Trump é muito importante na economia mundial. Tornou-se mais difícil para a Venezuela conseguir empréstimos, vender novos ativos e renegociar suas dívidas internacionais. Porém, há quem diga que as sanções não geraram nenhum efeito novo pois a nação sul-americana já estava isolada à anos. Entretanto, a escassez de produtos se intensificou, já que sem dólares fica mais complicado importar bens. Mas apesar das sanções, os Estados Unidos continua sendo um dos principais importadores de petróleo venezuelano.

O professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Vanderlei Dias, acredita que o regime de Maduro está se esfacelando. E que se os militares deixarem de apoiá-lo, ele cai. O docente ainda ressalta que a melhor saída agora, mesmo que Maduro não queira, seja negociar com seu opositor. Pois teme que caso isso não aconteça o país entre em uma guerra-civil. Já que grande parte da população e mais de 50 países classificam a Venezuela como uma ditadura. Porém, acredita que pelo atual andamento dos fatos, o mais provável que aconteça é uma derrubada de Maduro pelos próprios militares. Apesar de não ser a solução.

Fonte: BBC BRASIL

Texto: Emilly Nascimento