O Preenchedor de Lacunas

 

Sexta-feira, happy hour, batata frita e copos de chope. Falávamos sobre economia, política, futebol e astrologia até chegarmos a um assunto bem mais polêmico: o meu passado.

“Você quer mesmo fazer isso? É como um vitral: você se quebra e tenta colar os pedaços de novo”

“Tem um buraco, um vazio que eu preciso encher… Pelo bem da minha memória”

“Se o problema é esse, eu posso te ajudar” – Começou a procurar um cartão no bolso.

“Outro psicólogo?”

“Não” – Riu – “Sabe o bairro dos ciganos? Tem alguém lá que pode te ajudar” – Me entregou um cartão e li: ‘O Preenchedor de Lacunas – consiga a resposta para suas perguntas mais íntimas’.

“Tarô ou leitura de mãos?” – Perguntei.

Riu – “Eu não sei. Nunca fui, mas só vi boas recomendações na Internet. Um cigano me deu esse cartão quando eu passava por lá”

E assim eu me fui, procurando o tal ‘Preenchedor de Lacunas’. Não demorei pra encontrar uma simples casa laranja que se destoava no bairro. Bati na porta e um cigano moreno, com um lenço vermelho na cabeça e um dente de ouro me atendeu.

“Pois não?”

“Procuro o preenchedor de lacunas”

“Veio ao lugar certo” – Ele me guiou para uma sala com uma pequena mesa de madeira no meio. Em cima dela, havia uma brilhante bola de cristal – “Coloque as mãos na bola e relembre. Não se assuste se algumas imagens passarem por sua cabeça”

Fiz o que ele instruiu e fechei os olhos por um rápido segundo. Tirei a mão do objeto como se tivesse sentido um choque.

“Do que você tem medo? De mim ou do seu passado?” – Ele provocou.

Me resignei e tentei de novo. Assim que fechei os olhos, ouvi um grito: “Fica longe de mim!”.

Eu me afastei da bola.

Continua na próxima semana… 

 

Foto: Guilherme Rossi