O Preenchedor de Lacunas parte 2

Parte 1

“Você ainda não está pronta pra isso” – O cigano disse e eu me levantei da cadeira – ” A culpa ainda te consome” – E ele me expulsou de sua casa.

Só fui passar pelo bairro dos ciganos dois meses depois, procurando abrigo de uma chuva torrencial que transformava as avenidas em oceanos. Vi a mesma casa laranja e a oportunidade de um teto para minha cabeça encharcada era tentadora demais para ser repelida por meu ceticismo.

Fui recepcionada pelo mesmo cigano, que me guiou até a mesma bola de cristal. Assim que coloquei as mãos no objeto mágico, uma voz invadiu meus ouvidos… a minha voz!

“Por que você fez isso comigo?! Por quê?!” – O timbre carregado de choro desnorteou meus sentidos e quase perdi a consciência. Senti meu ombro ser puxado para trás e meus sentidos voltaram. O cigano largou meu ombro e balançou a cabeça.

“Ainda não está pronta” – E, por sorte minha, a chuva já havia passado.

Quatro meses e dezenas de pensamentos consumidos depois, eu estava lá de novo.

“Eu vim resolver isso de uma vez!” – Invadi o cômodo da bola de cristal e o cigano sorriu cinicamente. Tomei a bola de cristal nas mãos e minha voz ecoou novamente:

“Por que você fez isso comigo?! Por quê?!” – A frase se repetiu, mas o timbre angustiado de antes fora substituído por um rugido feroz, quase inumano em sua raiva.

Meu corpo foi jogado para trás e o cigano riu em descaro – “Continua não estando pronta” – E dessa vez eu mesma saí, desejando esquecer a porta se fechando atrás de mim.

E nas contas, nos trabalhos, nos amores e nas paixões fugazes, eu me esqueci totalmente daquela casa. Apenas me lembrei dela quando estava passeando sem rumo numa noite de lua minguante. Vi o laranja se destacar nas luzes dos postes e me senti compelida a voltar. O cigano me recebeu com um olhar desconfiado e me levou até a bola de cristal. Segurei-a em minhas mãos e finalmente vi…

Memórias que eu tentei tanto reprimir passavam por detrás dos meus olhos como se fossem uma comédia romântica. Me lembrei do bom e do belo e delicadamente soltei a bola de cristal. As imagens que guardei me marcaram em forma de lágrimas e o cigano sorriu e me estendeu a mão.

“Agora está pronta”

Foto: Guilherme Rossi