O oftalmologista

Tenho por malditas, aquelas minúsculas letras projetadas na parede! Desde os meus dias mais infantes, sempre odiei a ida ao oftalmologista. Ódio este proveniente de minha extrema dificuldade em enxergar sem meus inseparáveis óculos.

Tudo ocorria dentro da normalidade. Exceto o fato de não conseguir decifrar aquelas miúdas letras tatuadas na parede. Uma leve frustração começava a me esganar, quando foi bruscamente interrompida por uma ingênua pergunta do doutor:

– O quê você faz da vida?
– Estudo! Disse rapidamente.
– Estuda o quê?
– Letras. Respondi.
E com certa curiosidade, ele me questionou:
– Lá na faculdade, vocês estudam… Literatura?
– Que sim! Retruquei.

Com um sorriso que descobria-lhe todos os tentes, o já experiente oftalmologista esqueceu-se do meu não simples problema de visão, e passou a externar com todas as suas forças, o seu transbordante amor pela literatura.
Em questão de segundos, aquele pequeno e escuro consultório teve suas estruturas abaladas. As paredes alargaram-se de tal forma, que se desintegraram! Toda a escuridão que existia, foi dissipada por um ardente e literário sol. Aquelas amargas letras que antes, estavam amalgamadas na parede, serviram-nos por doces guias para rompermos todo e qualquer alicerce terrestre. Juntos, ressuscitamos Machado de Assis e Guimarães Rosa (como se estivessem mortos!).

Subimos à Europa e visitamos Shakespeare. Fizemos escala na França e dialogamos sobre Proust, antes de irmos à Rússia, falar sobre Dostoievski.
sudéssemos, ficaríamos a tarde toda tomando centenas de cafés conversando desde os trovadores, até os autores que nos são contemporâneos. Mas devido à efemeridade dos bons momentos, tivemos de por um ponto final em nossa boa conversa. Afinal, um outro infeliz tinha de ter os olhos examinados.

Certamente, me lembrarei por muito tempo daquela atípica consulta. Não por causa da viagem que fizemos sem nem sairmos daquela fria sala branca. Mas por causa do colírio que sem saber, me receitou o doutor: Literatura.

A sabedoria hebraica (nome que damos à bíblia quando não queremos chamá-la de bíblia) diz que os olhos são a lâmpada do corpo, e se estes forem bons, todo o nosso corpo o será também. Naquela tarde percebi que o doutor não era oftalmologista apenas destes finitos olhos, mas cuidava também dos olhos que jamais hão de escurecer.

Se algum dia minha visão me trair e meus cansados olhos desfalecerem, seguramente continuarei enxergando através dos olhos que me fazem destruir paredes e viver em um mundo sem muros.

 

Leia aqui sobre a importância da Língua Portuguesa 

Matheus de Siqueira Nunes
Um apaixonado por futebol, que assiste basquete semanalmente, joga truco ocasionalmente e tenta viver poeticamente...
  • Beatriz Martins

    Math seus textos são pura poesia ,toda vez que te leio sinto leveza.