O menino da foto

Rio de Janeiro, reveillon na praia de Copacabana. Um menino negro, sem camisa, observa atento e maravilhado, o espetáculo de fogos na virada do ano. Perto dele somente as ondas escuras da noite. Um pouco mais distante, pessoas tiram fotos, e comemoram a passagem para 2018. Clique. Uma foto.

O fotógrafo vê a cena e decide imortalizá-la, sem nem imaginar que aquela imagem teria tamanha repercussão em seu país. A fotografia desse momento, que a primeira vista pode parecer banal e comum tomou grandes proporções, principalmente nas redes sociais.

Foram inúmeras as interpretações. Muitas pessoas, infladas por compaixão escreveram textos, criticando a desigualdade social, o descaso com as crianças, a tristeza de um, em meio à alegria de tantos. Todos esses textos vindos de pessoas compadecidas da pobreza e da solidão que acreditavam que aquele garoto sofria.

Houve quem dissesse que olhar para a criança negra e enxergar alguém inserido em péssimas condições financeiras e sociais, somente reforçava como as pessoas negras são vistas em nossa sociedade e o racismo enraizado nela. “É só um menino na praia”, muitos disseram.

Em meio a uma enxurrada de opiniões teve gente que se absteve.  Que apenas viram na imagem um belo trabalho de um fotógrafo.

É muito difícil saber a verdade sobre o menino da foto. Se ele era bem pobre, estava sozinho no mundo, ou se era apenas uma criança passando o ano novo com sua família.

Provavelmente os curiosos de plantão jamais saberão, de fato, quem é aquele pequeno garoto, mas, talvez, se analisarmos a nossa reação a foto poderemos saber um pouco mais sobre quem nós somos.

Andy Warhol, um renomado artista do movimento Pop Art, dizia que “a melhor coisa sobre a fotografia é que ela não muda, mesmo quando as pessoas mudam”. Muitas pessoas podem analisar uma mesma imagem, de vários jeitos, o que elas falam ou sentem pode dizer muito sobre a visão de mundo de cada uma delas.

Será que uma foto diz mais sobre quem esta sendo observado nela ou sobre quem a está observando?

Crédito da Foto: Lucas Landau

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Beatriz Martins

Paulistana de nascimento e de coração. Nunca dispenso um cafézinho e uma conversa boa. Amante de livros, séries e música. Enfim, só mais uma pessoa tentando se encontrar nesse mundão.