O mal pior

Qual é o inicio de todo o sofrimento? Antero de Quental possuía a resposta. O poeta realista dizia que o mal pior é ter nascido! Poucos se recordam do que vou relatar. Talvez ninguém se lembre. Mas eu nunca me esqueci.

Primeiro eu não entendia muito bem o mundo a minha volta, no entanto com o passar do tempo as coisas foram melhorando. Percebi que eu estava cercada por um líquido. Era bom, essa substancia trazia uma sensação boa. Tudo era bom naquele ambiente e havia uma voz angelical vinda do exterior. As pessoas perguntavam de mim e a voz dizia que faltava pouco. Pouco para que? Eu me perguntava.

As coisas começavam a ficar mais quentes e aconchegantes. A voz dizia que faltavam poucos dias. Estava com medo. Falta pouco para que? Eu estava flutuando no liquido quando uma luz iluminou o mundo. Olhei na direção da luz e havia um portal. Lá dizia: Ó! Vós que entrais, abandonai toda a esperança. (1) Pelo portal entrou uma mão, puxou-me. O Que eu faço? Pensei. Eu queria ficar com a esperança.

A mão me puxou mais forte. Não pude fazer nada. Sai daquele ambiente tranquilo. Mas pelo menos pude identificar a voz angelical. Eu estava dentro dela. Era uma moça. Ela disse que sou muito bonita. A mão era de um homem, eu estava em seu colo. Ele sorriu, eu sorri também. Ele não deve ter gostado de meu sorriso, ele me bateu nas costas. Meus pulmões se encheram com uma substancia diferente e estranha, respiro pela primeira vez. Eu choro, era preciso. Quando nascemos precisamos chorar.

Eu chorava porque sabia que o mal pior havia acontecido comigo: eu nasci! Iniciei minha jornada nesse espetáculo em que tudo está em constante mudança e meus pulmões anunciaram isso ao puxar ar para seu interior pela primeira vez.

(1) A divina comédia – Dante alighieri.

 

Escrito por: Ju Klaic

Fotografia por Guilherme Rossi