O amor pela camisa azul e preta

Iniciaremos uma série de depoimentos de atletas que fizeram parte da história dos times da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Começaremos com a ex atleta, capitã do time de voleibol e campeã do Juca de 2015, Julia Festa. Ela nos contou sua trajetória pelo Tubarão e o amor que, mesmo formada, ainda sente por esse time.

“O vôlei me escolheu quando eu tinha 11 anos… Estava na escola e me chamaram para fazer uma seletiva no time de Barueri, entrei no time e acabei me apaixonando pelo esporte, sabia que queria fazer isso para o resto da vida! Quando fiz 17 anos, entrei naquela fase de ter que escolher um curso, uma faculdade e, ao mesmo tempo, planejar como eu seguiria jogando… nada mais justo que escolher a faculdade mais renomada em Comunicação e nos esportes, o Mackenzie! Entrei no Mackenzie em 2013. Minha melhor amiga comemorou comigo e disse “Você vai jogar o JUCA pelo TUBA. É animal! ”. Confesso que não sabia o que era TUBA ou JUCA, mas a animação dela me contagiou!

Time de vôlei feminino e toda comissão

Eu vinha de um ritmo de clube… não faltava bola, não faltava uniforme, não faltava transporte, não faltava técnico e não faltava atleta. Era fácil jogar com esse conforto! Entrei no TUBA na minha 3ª semana de aula. Primeiro treino e a primeira troca de palavras com o Douglas (o técnico): “Você é paciente? ”. Paciência… sábias palavras, Douglas. Foi um choque quando vi o que enfrentaria. O cenário? O técnico não recebia salário há meses (a atlética ia mal), as mais veteranas tinham se formado, os treinos acabavam às 23h (lembrando, moro em Barueri!), eu tinha que pagar meu uniforme e ir para os jogos sozinha. A pior parte? Era falar que eu era do time de vôlei do TUBA e rirem da minha cara. Paciência…

Primeiro jogo pelo Tubarão: Unisantana. Meninas enormes e que já foram federadas. Talvez eu soubesse que não dava para ganhar, mas nunca fui de desistir, afinal, já estava lá né. Nesse jogo tive que ouvir de uma menina no meu próprio time: “Para de ser trouxa, você nunca vai ganhar nada no Tubarão”. É. Acho que foi daí que surgiu meu amor pelo Tubarão. A chance de mudar, crescer e fazer o que consideravam impossível: vencer. Aos poucos fui conquistando a confiança das veteranas que ficaram e das bixetes que entraram comigo. Começava a vender a ideia de ganhar. No começo foi bem difícil, afinal, quem queria se privar de se divertir para jogar em plena faculdade, no melhor e mais esperado jogos, JUCA?

No meu primeiro JUCA (2013), o time eram 9 meninas, 2 ex-alunas, já não tinha muito o que mudar, tínhamos que trabalhar com esse número. Perdemos na semi para a Metodista, 2×1. Zero torcida do Tubarão. Risada da nossa cara. Saí desse Juca certa de que as coisas iam melhorar, chegamos em uma semi, não foi tão ruim assim… Mas a atlética piorou, o Douglas raramente ia dar treino por falta de salário, não tínhamos mais as ex-alunas. Eu e as meninas do time nos olhamos e decidimos “Vamos pelo menos nos divertir em quadra”. E como nos divertimos… O time foi criando um perfil, nos cobrávamos a melhorar o que tínhamos, saíamos juntas, passávamos perrengue juntas, brigávamos juntas… O Tubarão se tornou nossa válvula de escape da rotina, nossa forma de desestressar e se divertir!

JUCA 2014. O time já tinha aumentado, já nos conhecíamos um pouco melhor… Mas sabe quando os objetivos ainda não estão alinhados? Você ainda não conseguia sentir que o time queria ganhar. Nesse JUCA não reconheci o meu time em quadra… aquele time que se divertia estava com medo, quieto. Desclassificadas no 1º jogo. No meio da partida eu perdi o ‘tesão’ de ganhar, briguei com o Douglas… Foi péssimo! Passei o resto do dia trancada na barraca, não conseguia olhar na cara de ninguém porque eu sabia que a culpa desta vez tinha sido minha.

Depois desse JUCA, não tivemos o Douglas pelo resto do ano. Foi quando o time se fechou, alinhou os objetivos e cresceu…. Cresceu MUITO. Treino 2/3 vezes por semana, ninguém faltava, a gente montava o treino, a gente montava o time. Chamávamos os meninos do masculino para ajudar a gente no volume de quadra. Também entrei para a atlética com a Fernanda e a Alyssa (meninas que jogavam comigo), queríamos mudar a bagunça que tinham deixado nas gestões anteriores.

Em 2014 ainda, chegamos em uma semifinal da Olimack contra a LEP, jogo importante para a gente. Tínhamos o costume de sair da aula e ficar na atlética esperando dar o horário de treino/jogo a noite e, neste dia, a Alyssa e a Fernanda me pediram para ligar para o Douglas e pedir para ele ir no jogo, que precisaríamos dele. Liguei, ele foi. Meio que fizemos as pazes depois disso, pois a independência que o time criou nesse período estava evidente e o Douglas percebeu isso.

Em 2015, 3 meninas do time principal iam jogar seu último JUCA. Sentia que era esse ano ou nada. Última vez que estaríamos juntas em um JUCA, depois de tanto que treinamos, abrimos mão e lutamos. Nunca carreguei tanto peso nos ombros como em 2015… Fui para o JUCA como Diretora Geral de Esportes da Atlética, Diretora de Modalidade e capitã do time. E as coisas nunca deram tão certo… Foi uma pressão que eu nunca tinha sentido antes, nunca quis nada na vida como eu queria ser campeã naquele ano. Como capitã, eu tinha que transmitir confiança, meu time jamais poderia ver ou sentir pelo o que eu realmente estava passando, que era o medo de depois de 3 anos não ser capaz de dar 1 título para o Tubarão. Antes dos jogos, me trancava no banheiro para chorar e rezar… Acho que foi a forma de “me concentrar” que encontrei.

O primeiro jogo foi o mais difícil… Eu estava praticamente virada porque tive que ir no último ônibus e o nosso jogo era super cedo. Ganhamos… O segundo jogo foi fácil, sacamos muito, estávamos todas muito concentradas. A final… Até me arrepia contar… O Douglas fez a gente chegar 1 hora antes do aquecimento para conversar. A gente se desligou do mundo, demos muita risada, choramos e lembramos de tudo que passamos e até onde chegamos. Foi lindo. Fomos para o jogo. A Grifo tinha um time tecnicamente melhor que o nosso, mas não com tanta garra e união como o nosso.

Começamos o jogo perdendo o primeiro set, mas sabe quando você perde pensando “Cara, está tudo bem. Faz parte. A gente vai ganhar os próximos sets!”. Dito e feito. Nunca jogamos tanto, nunca estivemos tão em sintonia. Ganhamos o jogo. Que sensação de dever feito… Passou um filme pela minha cabeça… Quem ria de nós, quem disse que nunca ia ganhar nada com o Tubarão, hoje respeita. E o que o Douglas me disse no primeiro dia de Tubarão “Você tem paciência?”, foi o segredo para ter os melhores 4 anos da minha vida.

Meu último JUCA infelizmente foi triste, em todos os sentidos… Na verdade, foi um JUCA que eu prefiro apagar e nem falar sobre. Foi difícil me despedir e mais difícil ainda por nada ter acontecido da forma que eu esperava. Faz parte. Agora, o que me deixa muito alegre é ver como o time está seguindo (e muito difícil também de ter que ficar de fora). Elas já estão com o perfil delas de jogar, as meninas que vão assumir o time estão começando a entender como as coisas funcionam. Desejo a todas que tenham a experiência que eu e o time de 2015 tivemos, é o que eu sempre tento passar para elas. Que se divirtam, entendam a responsabilidade de ser uma atleta, o peso da camisa do Tubarão e paciência… Nada se ganha sem treino e dedicação.

Julia e suas companheiras de time no Juca 2017

Você começa a dar valor àquilo quando você sente que tem que abrir mão de outras coisas, para se dedicar àquilo. A camiseta azul e preta eu vou sempre levar comigo. O Tubarão me ensinou coisas que nenhum curso do Mackenzie me ensinaria e que eu levo para minha vida pessoal e profissional… Me deu amizades e lembranças que preenchem meu coração de alegria.

Editado por: Rafaela Rossi.