Não conseguir estar sozinho

O colapso não chegaria aqui, afinal, estava tudo planejado. Faculdade, academia, relacionamento. Tudo. A mínima distância entre nós seria ele colidindo com a vizinha que sai para passear com o cachorro pequenino todas as manhãs, de segunda à sexta. Talvez com a dona da marcenaria também, que vendeu doces a mim e ao meu irmão, mesmo quando nossa mãe nos proibia de comê-los. Mas comigo? Não, em hipótese alguma.

Só que as listas, as baladas, os beijos, os abraços e as risadas não foram o suficiente. A minha mente sucumbiu. Não houve mais espaço entre eu e o colapso: nós nos tornamos um só.

Foi em um domingo qualquer, admito. Era para ser só um momento de distração: pipoca, Netflix e, mais tarde, uma conversa no FaceTime sobre o filme novo assistido. Mas esse é o problema da confusão interna: ela nunca ligou de chegar em momentos inconvenientes e ser a minha única companhia. Ela sempre disse que era egoísta e que não via problema em dizer isso com todas as letras. Ela não negava que não gostava de estar em um ambiente com coisas que roubassem minha atenção, mas, boba que sou, esqueci-me de ouvi-la.

Então, naquele fim de semana friorento, de Maio, ela gritou novamente. O mais alto que pôde. Disse o quanto queria estar comigo, sozinha. Cedi. Não havia como. Os berros foram altos demais, pessoais demais, pesados demais. Quando acatei seu pedido, mesmo contra a minha vontade, chegamos ao exato lugar que ela sempre quis: na cama.

Puxei a coberta macia, afofei os travesseiros e fiquei olhando fixamente para o guarda-roupa amadeirado. Entre os altos e baixos de suas falas em meus pensamentos, fui acertada em cheio, na boca do estômago, com o peso da realidade da nossa geração: nós falamos incessantemente sobre o amor próprio, mas odiamos estar com nós mesmos. (Infeliz)mente.

Texto por: Alice Arnoldi

Já ouviu falar de sustentabilidade na moda?

Aline Fatima
Paulista de coração, perdida no mundo dos livros e noticias. Um sonho? poder viajar o mundo ouvindo as historias de seus personagens.