Mulheres na Arquibancada – São Paulo

Torcedoras comentam sobre a presença das mulheres na torcida do São Paulo FC

Ao observar a torcida do São Paulo durante um jogo no Estádio do Morumbi, é possível notar uma quantidade maior de homens do que de mulheres. Mas elas estão ali, marcando presença nas arquibancadas, torcendo e apoiando, com o mesmo amor e a mesma dedicação de um torcedor do sexo masculino. Há torcedoras que acompanham praticamente todos os jogos no estádio, como é o caso de Larissa Costa (22), Amanda Rufino (23), Mayara Orosco (24) e Camila de Paiva (24).

Mayara no Estádio Beira-Rio

“Quando o São Paulo joga em casa, dificilmente eu perco algum jogo. Em 2018 deixei de ir à apenas três jogos”, disse Mayara. A torcedora também comentou que já viajou para outros estados para acompanhar os jogos do tricolor paulista. “Neste mesmo ano fui à dois jogos fora, contra o Cruzeiro no Mineirão e contra o Internacional no Beira-Rio.”

Camila comentou que tenta comparecer à todas as partidas em que o São Paulo é o mandante, uma vez viajou para fora do país e deu sorte já que “coincidiu do São Paulo fazer a pré temporada no mesmo lugar que eu estava, e acabei indo ao jogo. Mas aqui (no Brasil) ainda não fui, é uma meta.”

Larissa e Amanda também vão aos jogos sempre que é possível. “As vezes consigo ir em vários seguidos e é muito gratificante apoiar o time. Já viajei uma vez, mas não faço com frequência por falta de meios de locomoção”, relatou Larissa. Amanda nunca viajou para acompanhar o time fora de casa, mas tem vontade.

Da esq. para a dir. Larissa, Amanda, Mayara e Camila

Apesar do aumento da presença feminina nas arquibancadas, elas ainda estão em minoria. Várias torcedoras têm medo de ir aos jogos sozinhas. Há inúmeros casos de assédio e violência contra mulheres nos estádios de futebol, esses casos enquadram-se como “importunação sexual”, considerada como crime desde setembro de 2018.

Larissa é uma das torcedoras que já sofreu algum tipo de assédio em um estádio de futebol. “Já tiveram casos de estar em uma muvuca e passarem a mão, falarem coisas ofensivas”, disse a torcedora. Camila e Mayara contaram que no caso delas nunca passou de assédio verbal, mas Mayara acredita que “a maioria das mulheres que frequentam estádio sem que estejam acompanhadas de algum homem sofrem assédio constantemente”. Amanda nunca sofreu assédio no estádio, mas salientou que nas redes sociais é o que mais acontece.

Camila no Estádio do Pacaembu

As quatro raramente vão desacompanhadas nos jogos. “Procuro ir sempre acompanhada. Mas na primeira vez que eu fui, foi sozinha.” disse Amanda. “Fiquei com medo e muito tímida”, completou. Camila sempre marca de encontrar alguém, se sente mais segura com companhia. Mayara contou que vai com um grupo grande de torcedores, mas que já foi sozinha e ficou com medo na volta para casa. “As ruas do entorno do Morumbi são um pouco escuras e esvaziam rapidamente.” explicou a torcedora. Larissa não ia aos jogos porque o pai dela não permitia, com medo que a filha passasse por alguma situação de violência. Cansada de ver os jogos pela televisão, ela tomou coragem e foi sozinha, a partir daí, não largou mais a arquibancada. “Comecei a ir sozinha mas depois fiz vários amigos na torcida e hoje sempre tenho companhia”, disse Larissa. “Eu ainda tenho medo, sei que pode acontecer briga a qualquer momento, mas o amor é maior.” ressaltou.

Nem todas as mulheres têm companhia para ir às partidas, mas esse não é mais um problema. É possível participar de Movimentos Femininos que reúnem torcedoras para irem juntas ao estádio, como é o caso do São PraElas. O movimento surgiu com o nome “São Paulinas Uniformizadas” e, inicialmente, as torcedoras protestavam contra a falta de artigos esportivos femininos. Depois de um tempo elas perceberam que a luta para conquistar o espaço das mulheres nas torcidas de futebol ia além dos uniformes e criaram o movimento, que tem o intuito de “trazer cada vez mais mulheres para os estádios, trazer segurança umas às outras”, explicou Camila, que é uma das integrantes do São PraElas. “Nos encontramos sempre em todos os jogos e sempre novas meninas estão participando para terem companhia”, comentou Larissa, que também participa do movimento.

O Movimento “São Pra Elas”

Há também uma ala feminina criada pelo próprio clube, que se reúne periodicamente com algumas torcedoras para discutir soluções para problemas que as mulheres encaram na torcida. “As torcedoras podem entrar em contato direto com essa ala através de um e-mail, orientou Mayara.

Além de lutar para conquistar o espaço das mulheres na torcida, elas também enfrentam o julgamento do machismo no mundo do futebol, e precisam provar sempre que possuem o conhecimento necessário para falar sobre o assunto. “O que mais me incomoda é a mulher ter que provar o tempo inteiro que entende sim de futebol. É clichê, mas questionamentos como: “o que é impedimento?” “Me fala os 11 titulares do seu time” são feitos o tempo todo”, comenta Mayara. “A surpresa de um homem ao ver uma mulher falando de futebol, diz muito sobre o machismo no meio do esporte”, completa. Para Amanda, o que incomoda além das perguntas para testar o conhecimento é a falta de respeito. “É um momento para deixar as diferenças de lado e se juntar para aproveitar o jogo, apoiar o time.” ressaltou Camila.

A relação com o São Paulo

Para duas das quatro torcedoras, a paixão pelo tricolor paulista foi passada de geração para geração. “Meu pai é o motivo de eu torcer para o Spfc, mas a atitude de assistir aos jogos com ele, pedir camiseta, pedir para ir ao estádio, sempre foi minha desde pequena”, disse Mayara. Camila também foi influenciada pela figura paterna.“Meu amor surgiu quando eu tinha uns 4 anos por influência do meu pai, sou eternamente grata a ele por isso”, explicou a torcedora.

Amanda em visita ao Estádio do Morumbi

Para Amanda e Larissa, foi um pouco diferente. “Não tenho pais são paulinos, não tive nenhuma influência. O amor pelo São Paulo simplesmente nasceu e quando eu percebi já tinha tomado conta de mim”, disse Amanda. “Quando eu tinha uns 12 anos a única coisa do São Paulo que eu tinha era um navio de brinquedo que tinha o símbolo, em dias de jogos eu pegava esse navio e ficava segurando e torcendo..fiz isso por muitos anos” contou Amanda. De certa forma, Larissa também foi influenciada pelo pai, mas não do jeito convencional. “Meu pai sempre torceu para o Vitória, mas ele falava sempre que o São Paulo era o melhor time e eu tinha que torcer pra ele”, explicou Larissa. “Quando eu comecei a acompanhar junto com meu pai eu me apaixonei e não larguei mais”, concluiu.

Larissa no Estádio do Morumbi

O amor das torcedoras por um clube de futebol também faz com que cometam loucuras por ele. “A maior loucura foi ir no ônibus da torcida organizada ver uma partida fora, não achei que um dia faria e não sei se faria de novo, mas foi uma experiência diferente, com certeza” disse Larissa. Amanda comentou que ainda não fez nenhuma loucura, mas que pretende fazer uma tatuagem para eternizar o amor pelo clube.

Tatuagem de Mayara

Para Mayara, tudo que ela faz pelo São Paulo pode ser considerado como loucura. “Vou a todos os jogos, perco eventos de família, me dedico, gasto muito dinheiro”. A torcedora comentou que está indo para a segunda gaveta de roupas do São Paulo, e que fez uma tatuagem com o nome do clube para marcar a paixão na pele. “Fico sem dormir quando o São Paulo perde um jogo, choro de alegria e de tristeza, e encaro tudo isso de uma forma natural, é a minha vida e me faz feliz.”

Essa matéria faz parte da série “Mulheres na Arquibancada” produzida pela Redação Virtual da Universidade Presbiteriana Mackenzie  . Veja também a matéria sobre as torcedoras do Palmeiras