Mulheres na Arquibancada – Palmeiras

Torcedoras do Palmeiras comentam sobre a presença feminina nos estádios

 

Os homens ainda são maioria nos estádios de futebol e o público desse esporte ainda é predominantemente masculino. Apesar disso, a presença feminina vem aumentando e pouco a pouco as mulheres ocupam seus lugares nas torcidas de futebol, algumas chegam a frequentar quase todos os jogos do time do coração, como essas três torcedoras, que não se conhecem mas possuem uma coisa em comum: o amor pelo Palmeiras.

Camila Rocha (24), Fernanda Fuza (20) e Jéssica Phaiffer (24) são torcedoras fanáticas e não medem esforços quando se trata de Palmeiras. Acompanham quase todos os jogos do verdão quando o time joga em casa “Eu frequento o estádio desde março de 2016, vou religiosamente a todos os jogos desde janeiro de 2017 e no ano passado comecei a ir a alguns jogos fora em outros estados!” disse Camila.  

Jéssica Phaiffer

Fernanda e Jéssica também vão sempre que podem “Minha frequência no estádio é grande, no começo da temporada fico com dificuldade de ir durante a semana porque conciliar os jogos com a faculdade não é fácil, mas depois que garanto nota facilita um pouco. De final de semana sempre estou lá, é o meu role de sábado ou domingo” comentou Fernanda. Já Jéssica, disse que vai sempre que pode mas sua frequência nos jogos diminuiu por conta do alto valor dos ingressos estipulados pela diretoria do clube.

As três já foram assistir a jogos no estádio sozinhas, mas sempre com um grande receio “Já fui sozinha e o trajeto é o que mais me preocupa” relatou Jéssica. O ambiente de um estádio de futebol é predominantemente masculino, a quantidade de homens em relação a mulheres nas arquibancadas ainda é discrepante, e para Camila e Fernanda, esse é um fator decisivo “Fui algumas vezes sozinha. Sentia muito medo de ser seguida ou de que alguém perto de mim viesse mexer comigo” comentou Camila. Para Fernanda, as pessoas olham de um jeito diferente para uma mulher que está com camisa de time “Mulheres olham super estranho como se fosse algo fora do normal e os homens acabam olhando de uma forma que te deixa constrangida, as vezes mexem”.

O assédio é comum nos estádios de futebol, infelizmente. São inúmeras as torcedoras que já sofreram algum tipo de abuso físico ou moral, como Camila e Fernanda, que entraram para essa estatística “Já sofri tanto no caminho para o estádio quanto lá dentro. Sempre tem alguém para desmerecer algum comentário, achar ruim porque não paro de cantar” relatou Camila. Fernanda comentou que fica incomodada quando tem que passar no meio dos homens para chegar até a revista feminina, que fica mais à frente, ou quando vai ao banheiro no intervalo “Sempre tem alguém pra soltar algum comentário desnecessário”. Jéssica felizmente nunca passou por uma experiência desse tipo, mas comentou que se sente desconfortável com a maneira que assediam as líderes de torcida do Palmeiras.

Fernanda Fuzo

Atualmente, Camila, Fernanda e Jéssica raramente vão sozinhas aos jogos do Palmeiras. Frequentam as partidas acompanhadas por amigos ou familiares, mas nem todas as mulheres têm companhia para ir ao estádio. Porém, uma alternativa para driblar este problema. Existem movimentos que acolhem torcedoras para que elas não precisem ir sozinhas ao estádio.  

Camila é uma das líderes do Movimento Feminino Verdonnas cujo intuito é “oferecer apoio e companhia a mulheres que não frequentam o estádio por medo de irem sem companhia” declarou a torcedora. O movimento é grande e conta com mais de 8600 seguidores  no Instagram, 3600 no Twitter e 1500 no Facebook “Com isso as mulheres fazem amizades e não dependem exclusivamente das administradoras do movimento pra irem, nossa função é fazer a ponte entre elas, fazemos encontros pra que isso seja mais forte e sorteamos ingressos pra colocar mais mulheres lá dentro do estádio”. Jéssica também coordena um movimento, o ItalianMinas “Nossa união é dentro e fora dos estádios, para mostrar que a nossa força na arquibancada faz a diferença e que merecemos respeito acima de tudo”. O ItalianMinas tem 2200 seguidores no Instagram, 1500 no Twitter e 600 no Facebook.

Verdonnas e ItalianMinas

Além de enfrentar vários desafios para acompanhar as partidas de perto, elas também têm que lidar com o machismo diário no mundo do futebol. A predominância masculina acaba inferiorizando as mulheres, que sempre precisam provar seu entendimento do assunto”Você fala um a e já aparece um cara te questionando escalações e também o famoso “você sabe o que é impedimento?” disse Jéssica. Para Camila “a principal dificuldade é precisar provar o tempo todo que eu to ali porque amo o Palmeiras e tenho tanto entendimento pra falar sobre o futebol jogado quanto eles.” Muitas vezes taxadas de marias chuteiras, as mulheres ouvem que lugar de mulher não é no estádio e sofrem para mostrar que realmente amam o esporte”Os homens dizem que a gente não sabe do que tá falando e mandam a gente ir lavar louça ou ficam fazendo piadinha dizendo que só estamos lá pra ficar de olho em jogador, pra caçar namorado…” completou Camila.

A relação com o Palmeiras

Camila Rocha

O amor das três torcedoras pelo Palmeiras veio através da figura paterna “Meu amor pelo Palmeiras veio do meu pai. Eu não acompanhava até 2008, quando ganhou o campeonato paulista. Dali pra frente passei a acompanhar e frequentar jogos” contou Jéssica. Camila relatou que cresceu se dizendo palmeirense por causa do pai, mas a relação se tornou pessoal em 2012 quando terminou o ensino médio e entrou na faculdade “eu escolhi acompanhar o Palmeiras justamente quando ele foi rebaixado e eu tive o ano mais difícil e cheio de mudanças da minha vida! Entre 2013 e 2015 muita coisa aconteceu na minha vida pessoal, e mesmo não indo pro estádio e acompanhando presencialmente (pois não tinha condições financeiras) eu sentia que eu e o Palmeiras nos ajudávamos igualmente”.

Fernanda disse que seu pai é a sua grande inspiração para tudo na vida, que ele lhe apresentou o Palmeiras e desde pequena a leva aos jogos “Um fato interessante é que o primeiro jogo que ele me levou no Palestra antigo foi contra o Atlético Mineiro e quando houve a reforma eu tive a oportunidade de proporcionar isso a ele e o levei pra conhecer o estádio justamente em um jogo contra o Atlético”

Quando questionadas sobre a maior loucura que já fizeram pelo verdão, as respostas variaram “Foram duas, ir escondido em um clássico contra o Corinthians, e a outra que foi loucura demais, fui infiltrada contra o São Paulo no meio da torcida deles” contou Fernanda.

Camila arriscou um dia importante na faculdade para ver o Palmeiras jogar em a final da Copa do Brasil contra o Santos “Em 2015 eu estava no primeiro ano de direito e no fim do ano peguei sub/exame de algumas matérias, e a prova da matéria mais difícil caiu no dia da final da Copa do Brasil. Eu fui até a faculdade e só assinei meu nome nessa prova, fui embora escondida pra Barra Funda com um amigo que ia ver o jogo na rua em algum bar e vi o Palmeiras ser campeão!”

Jéssica disse que a sua maior loucura foi a tatuagem do Palmeiras que fez no braço. Coincidentemente, Camila e Fernanda também possuem tatuagens que marcam na pele o amor pelo verdão.

Da Esq. para Dir. Camila, Jéssica e Fernanda

Essa matéria faz parte da série “Mulheres na Arquibancada” produzida pela Redação Virtual da Universidade Presbiteriana Mackenzie