Morada

Morada 

Às vezes, abrir mão é o preço para agradar àqueles que te trouxeram ao mundo. Tentava pensar assim para não sofrer por tudo que havia deixado para trás. Dizem que a vida é feita de escolhas, mas a minha sempre havia sido guiada por escolhas dos meus pais.

Eu nunca soube o significado de criar raízes ou estreitar laços, sempre que pensava finalmente ter conseguido me estabilizar, lá estava eu de novo, indo atrás de mais incertezas, me sacrificando mais uma vez, abrindo mão de estudo, trabalho, amizade, amor. Sabe como é não ter um lugar para chamar de casa? Tentar manter relações virtualmente? Essa era minha realidade, mudança atrás de mudança.

Já estava farto de construir coisas para serem desconstruidas, de embalar móveis, perder semestres de faculdade, ser o aluno novo. Já estava cansado de despedidas, de não ter participação significativa na história de ninguém. Tantos recomeços sem continuações, não sabia ao menos se estaria no mesmo lugar no dia seguinte.

Foi então que, em um dos tantos lugares que passei, numa cidadezinha bem no interior do estado, a vida resolveu me surpreender.

Essa surpresa veio com 1,55 de altura, cabelos castanhos ondulados, olhos esverdeados e perfume de rosas vermelhas. Seu olhar transbordava timidez, mas ao mesmo tempo ousadia, o que fez com que um misto inexplicável de sensações se formasse dentro de mim.

Ela me conquistou assim que chegou e deu sentido para a minha vida, me encorajou a ficar, ficar para estar sempre ao seu lado. Hoje, após seis anos juntos, sei que com ela poderia me mudar todos os dias e sempre me sentiria em casa.

Finalmente percebi que lar não se trata de um lugar. Lar se trata de um alguém, se trata dela, com quem terei estadia permanente, em quem fiz morada.

Foto de Rebeca Dias