Montanha-russa

Chovia, como de costume. Era final de janeiro. Fim de tarde. Desci pelas escadas. Cumprimentei o porteiro. “Bom tarde, Laura !”. Sorri e acenei com a cabeça. Destravei o carro. Coloquei meus papéis e minha bolsa no banco do passageiro. “Não esqueci nada?”. Diariamente me fazia esta pergunta. Eu era distraída. Fazia tudo no automático.

Abri o portão da garagem. Liguei o GPS. Estava trânsito. Vinte e três minutos até o trabalho. A chuva já diminuía. Sinal amarelo. Reduzi e parei na fileira de carros. As gotas escorriam pela janela. Cada uma no seu tempo, em diferentes velocidades. Engraçado como o mesmo acontecia com as pessoas. Dentro de cada um daqueles carros, cada pessoa vivia no seu tempo, em distintas velocidades. Já eu, parecia estar vivendo em inércia. Não me lembrava qual tinha sido a última vez em que acelerei ou reduzi.

Era a mesma rotina. Diariamente os mesmos cruzamentos e as mesmas paisagens. Nada novo. Nada surpreendente. O sinal ficou vermelho. A gotinha que estava na frente na corrida, havia sido ultrapassada, assim como eu. As pessoas que normalmente caminhavam ao meu lado, hoje já estavam bem a frente. “A Bianca casou, sabia filha? O Manuel conseguiu um novo emprego e a Marília está viajando sem previsão de volta”. Eram sempre as mesmas novidades dadas pela minha mãe. Mas nada de novo para mim. Nada de novo em mim.

Teria eu entrado mesmo no automático? Aos 23 anos e eu já estava em uma infinita roda-gigante. O mais intrigante é que eu não sentia a necessidade de sair. Havia perdido o controle da minha vida. Assim como aquela gotinha, eu deixei que me ultrapassassem. Deixei cair no incessante ciclo do dia a dia. Não me entusiasmava mais. Logo eu que um dia já fui fã das pequenas alegrias. Sabe aquelas que para muitos são apenas situações do cotidiano? Como uma comida quentinha ou uma mensagem inesperada. Deixei de me alegrar com isto.

Por mais bobo que pareça a vida é enaltecida por essas pequenas felicidades. E eu as esqueci. Deixei de vivê-las. Deixei de notá-las. Em meio a inércia da vida, não reparava o que estava ao meu lado. Como a beleza daquelas gotinhas, correndo para se desfazerem ou para se reformarem. Eu me revisaria e me renovaria também. Em cima daquele meu cotidiano, passaria a ver o belo de novo. Em meio as pequenas coisas que mudavam meu dia a dia. Assim como aquelas gotículas.

Sinal verde. Arranquei com o carro. Mas decidi que roda gigante na qual eu vivia deveria parar. Dali em diante, eu assumiria o controle. Só que dessa vez, brincarei em uma montanha-russa.

 

Leia aqui um texto sobre novas experiencias.

 

Júlia Gabriello

Nascida em Ribeirão Preto, mas paulistana de coração. Amante dos encontros e desencontros da vida e apaixonada pela escrita. Acredito que cada um carrega um mundo, por isso, escrevo para espalhar meu universo “particular”.