Ocupar: como a moda se torna pano de fundo

Cidade. Dos significados mais objetivos, aglomerado urbano onde ocorrem relações e fenômenos sociais, culturais e econômicos. Com características bem próximas das históricas pólis gregas, as cidades são palco de acontecimentos que marcaram, e ainda marcam o mundo. Durkheim, sociólogo francês, dizia que para uma sociedade funcionar, ela tem que viver como um organismo biológico: se funcionar mal, entra em colapso. E as cidades, como antro de toda vida moderna, e para alguns, pós-moderna, nos serve de análise e exemplo para falar de sociedade.

Cada pessoa, organização, compõe uma célula desse grande organismo estudado por Durkheim. O lifestyle e as vestimentas dos habitantes das metrópoles, refletem suas lutas, resistências, crenças e ideias. Fazendo com que a moda se torne o melhor espelho do que a cidade representa para o indivíduo, nos revelando o interior de cada pessoa que cruza nosso caminho.

Amanda Sthephanie, 20, estudante de jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, militante do feminismo preto e periférico e das causas negras, tem uma noção bem forte sobre o modo como o ambiente influencia no seu estilo. Ela gosta de pensar em um corpo social, “quem eu tô representando, caso eu queira representar naquele estilo proposto.”

Ocupar. Tomar posse aquilo que não está cumprindo com sua função social. Visualmente, é possível perceber nas cidades uma resistência daqueles que não foram convidados para participar da festa que é uma grande metrópole. De pixos, a lambes, a moda se faz presente aqui também. “A ocupação visual se dá, pra mim, de uma maneira bem simples: em geral, eu visto o que ninguém se sente bem vestindo nos espaços que mais frequento. E é intencional”, revela Amanda.

O exterior – na moda –  revela muito do seu interior. Com escolhas de peças que muitos não teriam coragem de usar e ousar, a jovem mostra sua personalidade, buscando revelar um pouco de sua origem: a periferia. “Eu amo essa sagacidade que a quebrada leva pros centros, até na moda”, uma coragem para enfrentar as lutas do dia a dia, os preconceitos e as mortes – presentes na vida dos moradores da periferia de Osasco.

Ocupação é a representação da vivência. Pelo menos é assim que Brian Alan, 21, enxerga a  relação  de ocupação entre a cidade e a moda. “Você ocupa lugares que não costuma ir com frequência, ou que não representam sua essência, e através do modo como se veste, acaba levando suas influências para lá.”

Moda orgânica e mutável, hoje você pode acordar com vontade de vestir uma roupa mais street, amanhã sentir vontade de usar algo com influência do jazz. Uma “moda livre”, como define Brian. Ocupação visual nas cidades é também sinônimo de liberdade de escolha: é uma fuga dos padrões.

Vivemos, nas metrópoles, uma nova era. Um ambiente marcado pelo visual, onde as pessoas encontram na moda um grito de ocupação, uma maneira de contar suas histórias, de se identificar com o ambiente ao qual está inserido. Amanda entende isso, e afirma: “Eu me identifico comigo, sou resultado de tudo que vivi, das minhas experiências, das pessoas que somaram pra minha construção e da marginalização, que tira a gente da zona de conforto,  onde somos tudo e nada ao mesmo tempo”.

Texto por Gabriela Cesario e Giovana Rampini.