Meu lugar

Meu lugar

Decidi fazer um intercâmbio de um ano em Nova York. Não que fosse meu primeiro plano, eu pensava em sair do ensino médio e entrar direto na universidade, mas de repente eu me senti tão perdida. A profissão que eu havia escolhido ainda quando criança, não parecia mais a decisão certa. Eu não queria lidar com aquela pressão naquele momento, eu precisava dar um tempo para minha mente, precisava me sentir livre, eu necessitava mais que nunca de uma aventura. Eu estava com uma sede imensa por enfrentar desafios sozinha.

Passei a vida toda ouvindo que uma hora a gente precisa sair do ninho para crescer e era exatamente o que eu tinha em mente, mas foi só sentar no avião e meu corpo todo começou a tremer e tive que me forçar a não sair correndo de volta para o abraço dos meus pais. Eu tinha que ter coragem e eu fiz o que deveria ser feito.

Eu enfrentei todos aqueles 365 dias e agora, prestes a sair no portão de desembarque e reencontrar minha família, me lembro de todas as sensações desse último ano. A gente pensa que em um lugar diferente e distante vamos nos encontrar e nos jogar para sempre no mundo, viver uma vida cheia de aventuras, conhecer pessoas maravilhosas e não querer voltar nunca mais. Sim, eu realmente vivi todas essas experiências, conheci lugares e pessoas, consegui lidar com todos os problemas do dia a dia, me encantei com a beleza de uma nova cultura, mas, ao contrário do que pensei, no fim eu acabei percebendo que eu já me conhecia.

Eu já era quem eu queria ser, eu não precisava mudar, não precisava mudar o país que eu vivia, não precisava mudar as pessoas ao meu redor, não precisava mudar minha profissão e meus sonhos. Talvez eu saia do padrão, mas eu me encontro aqui. Dentro do abraço dos meus pais, com meus amigos de infância, com a profissão que eu sempre sonhei. Eu demorei para perceber, mas o meu lugar é onde eu sempre estive.

Rebeca Dias
“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador [...]" ― Clarice Lispector