Metamorfose no Ônibus

Era uma tarde como outra qualquer quando ela entrou no ônibus. Seus cabelos eram curtos, quase masculinos; ela usava uma camiseta azul colada ao corpo e jeans que ressaltavam seu corpo. Nos lábios, uma cor de batom que nem eu ousaria colocar: rosa magenta.

Os olhares que ela atraía eram diversos: uns eram de estranhamento enquanto outros julgavam sua aparência peculiar. A mim só cabia observar melhor os traços do seu corpo enquanto ela se sentava ao lado de um senhor no assento preferencial (o ônibus estava vazio). O senhor virou seu olhar de desdém para a janela, mas eu e ela sabíamos que seu nojo não advinha do inseto morto no vidro do veículo. O ônibus parou. Ela mudou de lugar, para o meu lado, também um assento preferencial.

“Posso me sentar aqui?” – Ela perguntou como se precisasse da minha permissão. Não deveria, pois ela, num espaço público, era assim como eu.

“Claro!” – Me virei e deixei-a passar para o assento da janela. Seu olhar se perdeu nas lojas e nos edifícios da avenida e logo entendi por quê: o cinza da rua na velocidade do ônibus era mais acolhedor a ela do que os olhares dos demais passageiros.

“Tá tudo bem?” – Eu me senti compelida a perguntar porque eu entendi, naquele momento, que ela era uma de nós, mesmo sendo diferente. Eu queria reagir, mas não sabia como. Eu nunca tive essa situação próxima a mim, mesmo sabendo que não fazer nada seria uma negligência.

“Tá sim, obrigada moça” – Ela simplesmente respondeu e sorriu. Eu sorri de volta e ela retirou de sua mochila a maior caixa de maquiagem que eu já vi.

Ela retocou seu batom rosa magenta e sua sombra rosa pérola e reclamou de como a base líquida derretia no calor. Usando meus conhecimentos de bailarina de espetáculo, falei que tinha preferência por base em pó. Ela sorriu tristemente e falou que teria que tirar toda sua maquiagem assim que chegasse ao trabalho.

Eu me perguntei, por que você vai ao trabalho maquiada então? E então a realidade caiu em mim. Ninguém nunca me questionaria se eu usasse maquiagem; inclusive, até me incentivam a pintar o rosto. Mas, para ela, se maquiar é um ato de resistência: significa ser o contrário do que se espera ser porque ela simplesmente é.

Tive mais certeza disso quando ela se levantou e eu vi o contorno de seu peito em metamorfose sob a roupa. Ela estava em transformação: uma mulher se libertando do casulo de um corpo masculino. Seu batom rosa magenta era considerado uma ofensa pelos demais, mas era um ato de afirmação de sua própria identidade.
Descemos as duas no metrô e fomos em caminhos opostos. Ela se despediu de mim com um sorriso, talvez agradecida de encontrar alguém que olhasse além da estranheza. Eu também sorri, feliz em encontrar a metamorfose em mim mesma.

Foto: Antonio Machado – Flickr