Manter, às vezes, é mudar

Quando criança existem expressões que são ouvidas frequentemente: “não toca nisso!”, “doce só depois do almoço” e “para senão vai se machucar.” Já eu, ouvia comumente: “Nós vamos nos mudar”.  Cresci com a mudança. Ou melhor, em meio a ela. Acostumei-me com a ideia de transitar de um lugar para outro. Na verdade, com a data de validade de cada moradia. E lá pela quarta casa quem decidiu que haveria uma quinta, foi eu. Uma jovem de 11 anos, sentiu que tinha autoridade para mudar toda a sua família novamente. Desde então, tenho sido meio nômade e não me sinto saciada em nenhum lugar.

A casa número cinco já se foi e junto com ela a minha capacidade de sossegar. Não sei me acomodar. Quando sinto que estou ficando confortável, eu fujo. Corro da zona de conforto, da sensação de monotonia e da falta de novidade. Acostumei-me com os mais próximos dizendo: “Você se adapta fácil as mudanças.” A verdade é que a mesmice me sufoca. É necessário novas janelas, paredes e portas, para que eu me sinta mais liberta, por mais fechada que eu esteja dentro daqueles metros quadrados. Mudar de ambiente era para mim como trocar de pele ou abandonar o casúlo. Renovador e libertador.

Mas, às vezes, acho que não seja só isso. Aqueles que estão sempre buscando mudanças, assim como eu, talvez ainda desconheçam a sensação de “sentir-se em casa”. Sabe aquele “feeling”  proporcionado por um lugar ou, até mesmo, uma pessoa? Aquela impressão de que você encontrou um espaço, no qual você não sente a menor vontade de deixar. Você poderia ficar lá para sempre e, ainda assim, seria pouco. Por que ele traz à tona uma mistura de sentimentos tão bons, que merecem ser sentidos constantemente.

Posso estar enganada, mas ao sentir isso, o nomadismo é deixado de lado e pela primeira vez a gente só quer ficar. Já que ficar, parece prazeroso. Por que às vezes manter-se é preciso. Há muito o que aprender ficando. E quando permanecer deixa de nos agregar, continuamos migrando. Seja de casa, de pessoa ou de qualquer que seja a coisa que te proporcione o “feeling“. Talvez nós que sentimos a necessidade de trocar, não tenhamos encontrado o nosso “espaço”, seja em algo ou alguém. E é bem possível que nunca encontremos. Neste caso, é só continuar mudando. Mudar faz bem e, muitas vezes, manter-se também.

Leia aqui uma crônica sobre a busca por mudanças.

 

Júlia Gabriello

Nascida em Ribeirão Preto, mas paulistana de coração. Amante dos encontros e desencontros da vida e apaixonada pela escrita. Acredito que cada um carrega um mundo, por isso, escrevo para espalhar meu universo “particular”.