Linhas tortas

Linhas tortas

Dez minutos. Faltava apenas dez minutos para minha vida mudar completamente. Comecei a suar frio e a tentar me distrair com qualquer coisa que estivesse à minha frente, mas só pensava em tudo que estava me esperando.

Há seis meses atrás, quando imaginava meu futuro, a última coisa que pensava é que um dia estaria sentada em uma rodoviária esperando o ônibus para a única cidade onde jurei nunca morar: São Paulo.

Mas por que? Eu só queria passar em uma faculdade pública no interior, me formar e continuar com a vida tranquila que já estava acostumada.

Fiquei imersa em meus próprios pensamentos e, só após alguns minutos, percebi que o ônibus já havia chegado e eu não tinha notado. Tentei me levantar, mas não conseguia fazer minhas pernas se moverem.

Eu não queria ir, não queria fazer parte de toda loucura que envolvia essa cidade. Congestionamentos, assaltos, lotação, empurra-empurra, estresse. Não, nada disso estava nos meus planos. Por que Deus estava me levando para um caminho totalmente oposto do que eu queria?

Despertei do transe rapidamente com a última chamada do motorista e me obriguei a seguir em direção ao ônibus. Entrei, me sentei e, tomada pelo cansaço, dormi durante todo o caminho.

Ao chegar à rodoviária, tirei meu mapa da bolsa e comecei a procurar para que sentido do metrô deveria ir.  Uma mulher de meia idade vestida de social, vendo que eu estava perdida, me ajudou a me localizar.

Estava aguardando minha linha há pouco menos de um minuto quando o metrô chegou, mas estava lotado. O segundo, também lotado. O terceiro, lotado. As pessoas se espremiam e eu simplesmente não sabia o que fazer. Notando meu desespero, um idoso que já estava dentro do trem ofereceu sua mão antes que a porta se fechasse: “Vem menina, senão você não sai daí nunca”. Desesperada, aceitei sua mão.

O idoso logo voltou a falar: “Sabe, eu já fui um jovem perdido como você. Odiava morar aqui, mas era o único jeito de ter uma condição de vida melhor. Com o tempo, vi que esse era meu destino. Lembre-se sempre disto: Deus escreve certo por linhas tortas. No futuro você vai entender tudo que parece inexplicável hoje”.

Foi naquele momento, espremida em um metrô, no meio da cidade de São Paulo, que comecei a prestar atenção em tudo que tinha acontecido. Uma bolsa de 100% em uma universidade renomada. Uma viagem segura. A ajuda de uma mulher desconhecida. A bondade de um idoso. Deus tinha provido tudo aquilo para mim e tudo o que eu fiz foi reclamar. Pela primeira vez, agradeci e abri meu coração para tudo que estava por vir.

 

Foto: Leo Henriques

 

 

 

Rebeca Dias
“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador [...]" ― Clarice Lispector