Legado Linda Brown

No dia 26 de março o jornal The Topeka Capital Journal anunciou o falecimento de Linda Brown, mulher negra que deu nome ao movimento contra a segregação racial nas instituições de ensino de seu país.

Linda era da cidade de Topeka no Kansas. Aos 9 anos seu pai Oliver Brown tentou   matriculá-la em uma escola próxima a sua casa, porém a matrícula foi negada devido a cor da sua pele. Oliver então, deu início a um processo judicial para que fosse aceita nesta escola. O caso recebeu apoio da Associação Nacional ao Avanço das Pessoas de Cor (em inglês, NAACP), organização que auxiliava e defendia os direitos dos negros e movimentou várias pessoas que passavam pela mesma situação.

O processo foi levado à Suprema Corte  dos Estados Unidos junto a outras 12 famílias e carregou o nome de Brown vs. Board of Education (Brown Contra a Junta de Educação de Topeka). Quatro anos depois, em 1954  saiu a decisão final que “acabava” com a segregação racial vigente nas escolas públicas desde 1896. Com o caso de Linda, vários outros relatos semelhantes vieram a tona e tiveram voz.

Na comemoração de 30 anos da sentença final, Linda Brown deu uma entrevista a rede PBS “Eu penso em termos do que isso significou aos nossos jovens, na eliminação desse sentimento de cidadãos de segunda classe. Acho que fez com que os sonhos, as esperanças e as aspirações de nossos jovens sejam maiores hoje”.

A  Profª Drª Mirtes de Moraes que atua nos cursos de Jornalismo e Publicidade na Universidade Presbiteriana Mackenzie, fala sobre a situação educacional atual: “Embora haja racismo nos dois países: Brasil e EUA, as formas de administrá-lo são completamente diferentes, vale destacar que nos EUA não se usa o sistema de cotas nas universidades pois não é realizado o vestibular no formato tradicional.

No Brasil, o sistema de cotas tornou-se conhecido em meados dos anos 2000, inicialmente pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que foi a primeira universidade do país a criar um sistema de cotas em vestibulares para cursos de graduação por meio de uma lei estadual que estabelecia 50% das vagas do processo seletivo para alunos egressos de escolas públicas cariocas. Depois, a Universidade de Brasília (UnB) implantou uma política de ações afirmativas para negros em seu vestibular de 2004, em meio a muita discussão e dúvidas dos próprios vestibulandos. A instituição foi a primeira no Brasil a utilizar o sistema de cotas raciais.
De lá para cá, outras universidades também foram aderindo às cotas em seus certames, destinando reserva de vagas não só para negros, como também para indígenas, pardos e membros de comunidades quilombolas – por meio de cotas raciais – e também para deficientes e estudantes de baixa renda oriundos de escolas públicas – o que chamamos de cotas sociais, ou seja, em nosso país, teoricamente o sistema de cotas não beneficia exclusivamente negros.
Hoje em dia, no Mackenzie, existe o coletivo negro AfroMack que abrange alunos e funcionários da instituição. A aluna Aline Bernardes, estudante de Jornalismo faz parte do coletivo e fala da importância de ações como a de Linda Brown e o quanto são necessárias ainda:

A sua existência está na necessidade de trazer familiaridade, cuidado e vivência entre pessoas negras dentro desse universo que é majoritariamente branco.

Para além disso, o coletivo surge também da necessidade de disputar narrativas epistemológicas.”

A questão da inclusão de pessoas negras não está apenas em entrar na universidade e sim em como será a vivência nesse ambiente: “Muitas pessoas, quando falam sobre esse assunto, dizem que o racismo é falta de educação ou estudo. Dessa maneira  enfrentamos um paradoxo. Num ambiente universitário, exclusivamente educacional, existir racistas é falta do que?

Sair do campo do comum, do raso é fundamental para entender questões de raça e racismo que permeiam as estruturas sociais e institucionais em que nos encontramos.

O pioneirismos e coragem de ações  como a da Linda Brown, serviram para romper com o status vigente à época e trazer novas possibilidades para os negros em todo mundo. Entretanto, entrar frequentar e permanecer na faculdade ainda é uma dificuldade encontrada por nós negras e negros neste país, reafirmando a importância do coletivo neste espaço” complementa Aline.

A  Profª Drª Mirtes ressalta a importância dos coletivos estudantis como meio de organização, ação política, compartilhando necessidades e ao mesmo tempo, buscando tornar esses ambientes mais igualitários.

A voz silenciada de Linda Brown pode encontrar no coletivo um papel de fazer ecoar de forma ressonante a luta e a resistência dos estudantes e funcionários pretos na instituição.”

Luana Cunha de Figueiredo

Futura Jornalista apaixonada por girassóis e pelos pequenos detalhes da vida. Curiosa o suficiente para questionar e refletir sobre tudo a sua volta.