“Hey, Digital!” traz dados e algoritmos para o centro do debate em sua 2ª edição

Por Bianca Machado, Gabriel Modesto, Gabrielle Mantovani, Maria Luiza Priori e Vitória Campos. Colaborou Thayna Batista (@mackjornalismo)

Nesta segunda-feira, 22, foi realizada a segunda edição do “Hey, Digital!”, que teve como norte a comunicação no cenário digital. Dados e algoritmos, além da sociedade em rede, ocuparam o centro das conversas nas quatro mesas que formaram o evento.

Na primeira, Jornalismo de Dados e Computacional, o engenheiro e pesquisador em Inteligência Artificial, Leandro Nunes de Castro, o jornalista e fundador da Lagom Data, Marcelo Soares, e o jornalista, escritor, docente e cronista, Renato Essenfelder, deram o tom do que depois se estendeu ao longo do dia.

Com mediação do professor Paulo Ranieri, a discussão levou em conta a corriqueira cobertura da mídia quando o tema é relativo à inteligência artificial. Com o vínculo entre a falta de pluralidade (diferentes fontes de informação) e diversidade (diferentes pontos de vista), a mídia se torna dependente de fontes que possuem a mesma opinião e visão de mundo.

Renato Essenfelder ressaltou que o jornalista deve ter muito cuidado quando “recebe um release de uma empresa qualquer”, pois o “procedimento deveria ser o mesmo quando recebemos uma pesquisa eleitoral”. Uma vez que, quando o jornalista recebe uma pesquisa eleitoral é necessário que ele busque a metodologia aplicada, logo, qualquer informação que chega até ele sobre inteligência artificial precisa ser verificada e apurada com excelência.  

Segundo Marcelo Soares, os jornalistas gostam de usar números como notícias e esta é uma estratégia comum por quem oferece os dados. É preciso sempre estar atento à máxima: “os números não mentem, mas os mentirosos usam números muito bem”. 

Em Jornalismo e o Dilema das Redes, já no período da tarde, Ana Brambilla, professora de comunicação do ISE Business school, Daniela Osvald Ramos, professora e pesquisadora da Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), e Edson Capoano, pesquisador na Universidade do Minho (Portugal), estiveram presentes. 

Os participantes comentaram sobre o consumo de informações e como os algoritmos estão tomando conta, cada vez mais, fazendo com que até mesmo alguns veículos sejam pagos para defender apenas uma área, procurando atender a um determinado interesse. Os algoritmos estarão sempre em constante desenvolvimento e se adaptando às novas eras e novas tecnologias, dependendo do “input” que a pessoa coloca.

Capoano apresentou algumas de suas pesquisas, oferecendo aos presentes uma percepção do jornalismo por parte dos consumidores de notícias, as sensações que a imprensa transmite, fake news, as influências que os jornalistas podem ter no meio digital e até mesmo a diferença entre as notícias de Brasil e Portugal. Ana Brambilla discorreu sobre como seriam as nossas vidas sem o WhatsApp e também o excesso de informações presentes no nosso dia a dia. Daniela Osvald Ramos abordou como a mídia “faz a cabeça” das pessoas e como o dilema das redes pode, muitas vezes, aumentar sua força. A conclusão da mesa é que as redes trazem para a sociedade e para a comunicação cada vez mais dilemas.

Propaganda Digital e Dados foi o tema debatido por Fábio Takahashi, Growth e Strategy da Jellyfish, Giovana Zulato, Coordenadora de Assessoria de Imprensa da Agência TUTU, João Francisco Raposo, pesquisador, docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP) e consultor de comunicação empresarial e digital, e o mediador, professor Lelo Brito. 

Durante a conversa, vieram à tona assuntos como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o uso dos algoritmos, como dominar o assunto sendo um comunicador e o lado positivo do avanço dos dados. Para iniciar, dois comerciais que falam sobre dados foram apresentados. 

Para Fábio, o uso de dados é muito recente e vem de uma transformação digital rápida, fato que torna normal não haver muitos especialistas na área. Segundo Giovana, pode-se esperar um cenário positivo, caso a LGPD funcione no país de maneira semelhante à Europa, porém, se não possuir a regulamentação necessária, pode causar mais insegurança nas empresas.

João Raposo trouxe a questão do novo profissional precisar ter conhecimento de tudo, pois, ao se relacionar com dados exercendo a função de comunicador, não é possível ignorar totalmente o uso das ciências exatas.  

Os convidados também levantaram a questão da privacidade. Todos concordaram que as novas gerações estão muito mais dispostas a entregarem sua privacidade em troca de uma experiência mais pessoal na internet, seja no próprio Google ou em aplicativos como TikTok e Instagram. É um acordo em que aceitam liberar suas informações e, como recompensa, ganham produtos e serviços mais personalizados. Sem isso seria impossível navegar na internet, “dados são o nosso cotidiano no cenário digital de hoje”, disse Fábio. 

A mesa Novos Caminhos, Novas Narrativas tratou dos formatos mais inovadores para se contar boas histórias e possíveis diferentes rumos. Mediada pelo professor Christiano Aguiar, a sala recebeu Tomás Chiaverini (podcast Radio Escafandro), Anita Deak (podcast Litterae) e Tamy Ghannam (LiteraTamy).

O primeiro assunto discutido foi a correlação da literatura com o espaço virtual. Anita falou, primeiramente, sobre o preconceito e a resistência ao mundo digital ante a área da literatura. Ela contou como esse ambiente lhe deu uma liberdade de carreira como autora, além de ampliar o público e render uma independência profissional. Segundo ela, o espaço virtual impulsionou a visibilidade para suas obras e descobriu o engajamento do público perante a divulgação prévia dos seus materiais. Para Tamy, algo que a motivou muito é a crença de que a internet ajuda a democratizar o acesso à literatura.

O segundo tema levantado foi a dificuldade de começar a atuar no meio digital e assimilar literatura e internet. Com isso, houve um consenso de que a falta de retorno financeiro e reconhecimento são um empecilho e podem desmotivar muito os criadores mais novos no espaço. “Ao contrário do Youtube, que repassa um valor para o youtuber, o Spotify não repassa nada. Então é interessante pensar também, que esse mundo digital fez com que todo mundo virasse seu próprio patrão, mas você fica escravo do seu próprio tempo”, disse Tomás.

Após mais de uma hora de bate-papo, os convidados responderam às perguntas do público. Tomás ressaltou que o mercado do podcast está crescendo constantemente, principalmente depois de 2020. “Se você vai fazer literatura, você tem que fazer uma boa literatura, ter o que falar e ter uma voz”, disse ele. Para Anita, o número de seguidores não é necessariamente uma base, e sim a qualidade dos mesmos. “Pode ser que você não chegue a milhões de pessoas, mas naqueles que importam”, disse Tamy, em concordância.