A herança de Vadão

O que pensa o técnico que acaba de deixar a seleção feminina brasileira de futebol depois de uma performance impecável nas Olimpíadas 2016

Oswaldo Fumeiro Alvarez (Vadão), aos 60 anos, sai do posto de técnico da seleção brasileira feminina de futebol com orgulho. Provou, mais uma vez, sua capacidade de conduzir um time com maestria após o trabalho feito nas Olimpíadas.

 O brasileiro vibrou com o futebol feminino que jogou incrivelmente bem durante o mês de jogos, enquanto o futebol masculino – mesmo ganhando o ouro -, oscilou muito durante a competição.

Com uma longa lista de times no currículo, Vadão, nascido no interior de São Paulo, foi ovacionado pelo trabalho feito com a seleção feminina. Com 24 anos de carreira, seu trabalho durou dois anos com a seleção, já que o objetivo eram as Olimpíadas. Recentemente a técnica Emily Lima assumiu o time, o que é inédito no futebol.

Vadão afirma ter adorado a experiência de treinar o time com estrelas como Marta e Formiga e agradece à CBF pelo apoio dado: “Tive todo o apoio da CBF, em todos os sentidos. Não me faltou nada. A única frustração é ter perdido a chance de disputar a final. Tivemos aquele jogo na Suécia, dominamos o jogo, finalizamos 30 vezes, eles finalizaram 6. E a gente não conseguiu colocar e acabou perdendo. Essa é a grande situação”, lamenta Vadão.

Foto: Divulgação
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O técnico fala com alegria das meninas da seleção. Observa um grande crescimento delas, muitas atualmente jogam fora do país e mesmo com o 4ºlugar nas Olimpíadas, foram muitas as conquistas nos últimos dois anos. “Nos outros torneios – eu disputei outros 2 internacionais – a gente foi campeão: um foi o torneio Brasília, ano passado foi em Natal, esse ano é em Manaus. Nesses dois torneios a gente enfrentou EUA e fizemos a final em Natal com o Canadá, dois grupos fortes. Ganhamos a Copa América em 2014, que dava direito ao mundial e ao Panamericano lá no Equador.”

Para Vadão, essa “migração” das jogadoras para outros países não ocorre só pela desvalorização do futebol feminino aqui no Brasil, mas principalmente porque elas provaram ser muito boas e isso chamou a atenção, além do salário lá fora ser bem maior. “Elas ganharam mais porte físico, a gente trabalhou muito porque ficamos muito tempo juntos. E aí todo mundo observou que as brasileiras estavam numa performance muito boa. Esse interesse pela atleta brasileira vai continuar acontecendo, e também não é só por causa da falta de apoio, porque nós também não conseguimos segurar os jogadores do masculino. O masculino também, porque os salários são maiores, são melhores”, declara o técnico.

 Ele ainda ressalta que os atletas querem jogar em times grandes e em campeonatos importantes para conseguirem retorno como por exemplo, indicações a prêmios. Para um técnico que até então só havia trabalhado com homens, treinar 30 mulheres a princípio parecia um grande desafio, mas aos poucos tudo ficou mais fácil porque as jogadoras facilitaram esse entrosamento, principalmente após elas vencerem um torneio na Copa América no Equador.

Foto: Divulgação
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Segundo Vadão, a relação não é muito diferente do que é com homens: “É interessante isso porque não muda muito o relacionamento do homem com a mulher, no sentido assim, de palavrão, de gíria, de futebol… Então não muda, essas coisas não mudam, então me senti muito à vontade para rapidamente conseguir me entrosar”.

Vadão ainda ressalta a importância de, durante a carreira, lidar com esses desafios, fazer coisas das quais não se está acostumado. O técnico fala da sensação de “dever cumprido” – o de ter provado ao mundo que futebol também é feito por mulheres. “É uma pena que a gente não tenha ganhado medalha, mas está comprovado” diz Vadão.

Ao ser questionado sobre a recente decisão da Conmebol, que obriga todos os times que quiserem jogar a Libertadores a terem uma seleção feminina, o ex-técnico da seleção brasileira comemora. “Acho uma ótima iniciativa, porque nos outros países, as associações, as confederações, todo grupo tem futebol feminino, nas escolas tem futebol feminino. Eles estão desenvolvendo muito mais que a gente, então a Conmebol dando esse empurrãozinho faz com que as equipes aí passem a trabalhar com futebol feminino”.

 E para ele, isso se justifica pelo fato da seleção feminina ter mostrado um futebol de campo que merece maior apoio daqui para frente. Vadão lamenta o fato das jogadoras não possuírem carteira assinada (ao contrário de jogadores homens, por exemplo), mas explica que isso ocorre porque futebol feminino no Brasil é tido como futebol amador, e não profissional.

Agora que deixou a seleção, Vadão tem algumas expectativas em relação às Olimpíadas de 2020. Ele afirma que a nova técnica, Emily Lima, terá tranquilidade para trabalhar bem pois ano que vem não haverá nenhum campeonato oficial.

As atletas precisarão se cuidar nos próximos 4 anos, e ele ainda ressalta a necessidade de ficar atento a possíveis novos talentos para, quem sabe, criar o que ele chama de uma seleção “doméstica”: “Em 2018 o Brasil vai disputar a Copa América, que dá vaga para mundial e para Olimpíada. A gente tem que buscar um dos dois, o campeão ou vice desse continente americano. Só que como a Conmebol não é a Fifa, as atletas que estão fora do país provavelmente não vão voltar para jogar, porque não é da Fifa, e o Brasil terá que jogar com um time totalmente diferente, não vai ter Marta, não vai ter ninguém se elas continuarem fora do país. Se a CBF conseguir que a Fifa e o Conmebol entrem em um acordo para que a competição seja com a Fifa e que as jogadoras possam ser liberadas, nós teríamos uma equipe fantástica. Alguns jogos jogar com a equipe que está lá fora e alguns jogos jogar só com a equipe que está aqui dentro para gente poder se preparar”, afirma Vadão.

Texto por Alexa Meirelles, aluna do curso de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.