Guarda-chuva

Guarda-Chuva

Estava saindo do trabalho,  passava um pouco das oito da noite. Depois de quase dez horas correndo para lá e pra cá, estava exausta , tudo que eu queria era um banho quente e uma cama macia. Quando pisei o pé para fora do shopping senti as gotas geladas na pele . ” Era só o que me faltava”,  pensei. A última coisa que queria era uma chuva dessas, depois de um dia daqueles. Pelo menos estava prevenida, havia um guarda-chuva na minha bolsa, algo que aprendi a levar sempre, depois de vários banhos tomados nas noites de São Paulo. 

Começava meu longo trajeto até a estação Paraíso, quando senti um toque nas minhas costas. 

“Moça me dá esse guarda- chuva , por favor?”, disse a dona da mão que me tocava. 

Olhei para trás, indignada pelo pedido, e me deparei com uma menina negra , de 16 anos e grávida, que mais tarde descobri se chamar Mayara.  Em sua mão segurava uma criança de 2 anos , junto delas estavam uma mulher que aparentava ter uns 30 , uma outra garota de uns 7 e um rapaz que parecia ter uns 20.

Respondi para ela, com tom bem seco, que eu iria me molhar. Depois de um dia inteiro trabalhando eu era só estresse e cansaço, e pensei o que a maioria diria, que se eu posso trabalhar para comprar um guarda-chuva, eles também poderiam.

Mayara insistiu “Ela é nenê moça,  pode ficar doente” , e eu disse ainda mais brava ” E eu também posso ficar “. Mas, logo após proferir essas palavras, olhei atentamente para aquela criança,  os olhinhos assustados e inocentes parados em mim. Ela não merecia pegar chuva por conta da irresponsabilidade daqueles que deviam protegê-la . Porém, eu ainda não queria tomar chuva . 

Decidi ficar no meio termo.

“Pega ela no colo e vem aqui no guarda chuva comigo”,  disse à garota. 

Ela olhou para a barriga e depois pra mim . ” Eu não  consigo segurar ela ” me disse, “Mas pode pegar, ela vai com todo mundo”. 

Depois de alguns segundos ponderando, peguei a bebê em meus braços,  a qual descobri mais tarde se chamar Lorraine, e lá fomos nós em nosso caminho, dentro do guarda-chuva.

Enquanto caminhávamos Mayara e a mulher mais velha, de nome Luzia, me contaram sua história. As duas eram irmãs,  assim como os dois que vinham mais atrás. Lorraine era filha de Luzia. 

Não tinham a menor idéia de onde estavam os pais. Os irmãos nunca o conheceram, e os que engravidaram tanto Luzia, quanto Mayara, abandonaram as duas antes mesmo das crianças nascerem.

” O pai é o primeiro a vazar”,  contou-me Mayara. Disse isso rindo , como se fosse tão óbvio que ela nem precisava explicar para mim.

 A mãe deles havia morrido e, a menos de um ano, todos moravam na rua, na Avenida Paulista.

Luzia disse, emocionada e feliz, que isso era passado, que agora, finalmente, tinham uma casa , na favela da Alba, em que todos moravam. Disse ainda, que preferia o perigo do lugar do que as ruas frias da Avenida mais conhecida da cidade. 

 Eu conhecia a Alba, trabalhei por um tempo no local, famoso por ser um dos bairros mais perigosos da Zona Sul. 

” É bem longe daqui né ? Como vocês conseguem sair daqui com esse monte de criança, uma hora dessas? “, perguntei.

“Isso não é nada moça! Eu fico tão feliz de ter pra onde voltar,  de poder tomar um banho, de ter uma cama. O caminho, o cansaço, não é nada.”

Suas palavras me deram um nó na garganta. 

Perguntei a razão de estarem tão longe de casa, e me disseram que todos trabalhavam vendendo panos de prato, toalhas de mesa e outras coisas assim, e que faziam essa viagem todos os dias, porque, ali no centro, as pessoas já os conheciam da época em que moravam na rua. Lá eles tinham uma clientela fixa. 

Toda a conversa levou menos de 10 minutos, e a cada fato que iam me contando sobre suas vidas, tão sofridas, me sentia pior. Pensava em como foi fácil julgar aquelas pessoas , sem nem saber nada sobre o contexto que havia levado cada um até ali, sem saber nada do que passaram.

Mesmo sem ter quase nada, aparentavam felicidade pelo pouco que conseguiram,  enquanto muitos, eu inclusive, não dávamos valor a facilidade da nossas vidas. Coisas pequenas para nós,  como ter uma família estruturada , um trabalho fixo ou apenas uma cama para deitar a cabeça exausta no fim do dia. Coisas menores ainda, como ter um guarda-chuva. Fiquei pensando sobre isso por vários dias depois daquele encontro incomum. Percebendo os privilégios da minha vida, que parecia tão comum.

Paramos em um farol. Eu ia para a estação, eles para um ponto de ônibus em outra avenida. De metrô seria muito mais rápido, mas  não tinham dinheiro para a passagem de todos, e o metrô não dá carona. Nos despedimos. Antes de ir, dei o guarda-chuva para a menina grávida, era o mínimo que eu podia fazer. 

Gosta de textos reflexivos? Vem dar uma lida nesse texto sobre Solitude.