Estações batidas

Em cada vagão encontro mais um rosto que cativa meu olhar. Alguns encaram os muros cinzas que passam correndo pelas janelas. Outros olham para o nada, e sempre me pergunto se fazem isso para fugir dos olhares de estranhos ou se seus pensamentos os obrigam a fugir desses olhares. Outros tem a cabeça baixa, checando quantos “likes” conseguiram na foto que postaram ontem. E aqueles que, como eu, observam discretamente tudo ao seu redor, sem sair da sua própria zona de conforto.

Já tive infinitos amores platônicos a cada estação, com os quais cruzaria a noite no mesmo metrô e talvez não reconheceria. Poderia até esbarrar com o mesmo de horas atrás, talvez com a mesa curiosidade também, mas nada passaria dessa curiosidade apática.

Quantas vezes já mudei de vagão em vagão sem nada novo para contar. Um sorriso, o nome de alguém novo, uma história nova, pois não quis sair do conforto da música dos meus fones de ouvido. Ou do medo de conhecer alguém para ser só mais um alguém, um nome que se desbota com o tempo. Talvez até da preguiça e do esforço de puxar assunto ou contar minha história.

Porque a vida tem dessas. De encontros e desencontros. Como trens que se cruzam em sentidos divergentes. Encontros que mais se distraem que se atraem. Que mais se chocam do que se cruzam. Que não existem. Mas se distanciássemos os olhos dos muros cinzas, do chão sujo de marcas de tênis anônimos, e dos desejados likes, poderiam. E esse eterno match virtual que nos distancia do match real. Que faz a vida dentro dos celulares e tabletes interessantes demais, e a vida real interessante de menos.

Texto por: Larissa Freitas

Já conferiu a exposição Grande Sertão Veredas ?