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Entre amigos

Gal canta nos fones encardidos de bom tempo de uso. Olho pela janela do último acento do vagão da linha verde. O cheiro acre do Tamanduateí saltita nas narinas, mas a vista é tão bela! São 16h27 de um 20 de julho. É inverno, contudo dizem na TV que estamos passando por um “veranico” – acho o nome de mau tom para a seriedade dos jornais. Acho-me chata por achar isso – o sol atravessa a janela nos poucos metros que metrô percorre sob a luz. Posso ver meus pelos do braço refletirem em tom dourado.
As faixas de aviso nas portas serpenteiam desforme. Olho para os passageiros. Uma mãe observa a explicação do filho, que está em seu colo, sobre um panfleto da Yamaha.
Uma senhora sentada a minha frente cochila com um sorriso no rosto. Sem a conhecer, lhe dou personalidade: deve ser daquelas pessoas felizes e de sorriso no rosto, não importa a amargura. Quando sem amigos, tenho por hobby observar as pessoas.
A porta se abre em Santos Imigrantes. Lembro-me da minha amiga que me indagou se íamos para a cidade de Santos mesmo quando parávamos na dita cuja. Ri. Recordei-me hoje ser dia do amigo.
A primeira imagem que me veio à cabeça fora a de Heloísa. Minha primeira amiga. Nem me lembro como conheci Heloisa. Ela parecia já estar lá desde que nasci. Só consigo me lembrar que nos distanciamos, apesar de sermos vizinhas. Eu, sem gabo ou rodeio, posso me dizer uma boa amiga. A primeira prova dei à Heloísa. Pegara meu perfume “Mamãe e Bebê” do Sítio do Pica Pau Amarelo,
acrescentei água, coloquei-o numa embalagem caprichada e a presenteei. Fiquei sem perfume, mas com sorriso no rosto.Depois viera Mayara – a grandalhona da perua e dos olhos doces. No alto dos meus sete anos eu já não era um dos seres mais populares do pré ou da primeira série. Ficamos amigas: eu gordinha, Mayara grandalhona. E passou-se. Mudei de escola na quarta e, digamos que, quanto mais o peso da balança aumentava mais os amigos fugiam. Encontrava a amizade necessária nos primos. Companheiros de aventuras e imaginação. Éramos agentes secretos, saímos em
comboio para resgatar “Nica” a cachorrinha desaparecida da minha avó. E acreditávamos que caixas de cigarro jogadas na rua com nomes esquisitos eram de traficantes internacionais.
Já na pré-adolescência, “a turma”. “As inseparáveis”. Amigas para sempre. Um conjunto de oito meninas que acreditavam que nunca iriam se separar. Ledo engano. Na primeira viagem fracassada, bye-bye. Mas essas são amizades de fundamental importância para a passagem da tão instável adolescência. Para nos ajudar nas lamúrias – no meu caso – de cinco paixões não correspondidas que reviravam a cabeça e me fazia pensar que não sobreviveria. Que era melhor estudar a geologia dos campos Santos após o desprezo. Sobrevivi… Com a ajuda dessas, de chocolates e novas paixões.
Ei-la: a faculdade. O lugar da turma. O lugar do encontro com os irmãos de alma! Cai do touro mecânico logo na primeira semana. Amizades eternas nas tarefas, nas ajudas, nas provas. Nas férias, como num truque de mágica, por mais que se tente tirar da cartola, eles se recusam a sair. Contudo, assim como não saem da cartola, perde-se um pouco a ilusão de encontrar amizades eternas. Amizades com “eu te amo” com um mês de amizade, alguns trabalhos trocados e pedidos de presença na chamada.
Não serei injusta: há aqueles que ficam. Há aqueles que se fazem presente.E eles ficam mais por afinidade do que por juras de amor. A gente tende a ficar com aqueles que de uma maneira ou outra, nutrem os mesmo desejos que nossos.
A pequena luz amarela pisca na estação Brigadeiro.
Amigos, sejam os passageiros ou duradouros, amigos de ocasião ou apenas de lembrança, todos eles deixam um pedaço de si em nós. Somos, em parte, um mosaico de partes dos amigos que passaram pelo nosso caminho. E, por isso, cada um deles tem um pedaço grande ou pequeno de importância.

 

Ouço o sinal – Estação Trianon MASP: desembarque pelo lado esquerdo do trem.