Ensaio sobre o reflexo

A arte e a vida são concomitantes, andam lado a lado e se espelham, uma é reflexo da outra. Isso porque a nossa vida nada mais é do que todas as relações que temos uns com os outros e com a si mesmo, e a arte traduz essa vivência para outros códigos. Códigos esses que talvez não sejam passíveis de introdução, apenas de observação, e assim captação dos sentidos para os absorvermos.

Toda a nossa vivência é reflexo. A partir do momento que percebermos que imergimos nas ideias dos outros, nas nossas próprias ideias e analisarmos tudo isso criticamente, a coesão da vida seria muito mais plena do que é hoje. Caso essa utopia aconteça, perceberemos que nosso passo com a perna direita ontem obviamente influenciará no nosso passo com a perna esquerda hoje.

A literatura me influenciou desde muito pequena, lembro-me bem dos gibis, dos livros religiosos e, melhor ainda, de O Pequeno Príncipe. Este último fez-me pensar sobre os chapéus que são jiboias digerindo elefantes, e sobre o porquê de os adultos pensarem daquela maneira. Os adultos pensaram que era um chapéu porque conviviam com chapéus, e não com jiboias digerindo elefantes.

A epifania é uma dádiva. É aquilo que descreve o “cair da ficha”, a percepção de uma ideia nunca antes pensada por você, mas como a epifania pode ser tristonha. Basta ler 1984, de George Orwell, uma sucessão de epifanias sobre tudo aquilo que nos permeia e nos controla. Mas me pergunto o que mudou na minha mente após eu ter lido George Orwell. No começo, era uma gigantesca revolta e vontade de revolução, “Abaixo o Grande Irmão! ”, e agora? Virei adulta e comecei a ver chapéus? Me conformei com isso?

A falta de generalização é uma dádiva. Não é porque virei adulta (será?) que comecei a ver chapéus por aí, George Orwell com certeza não via chapéus por aí. E ele era jornalista, será que isso era reflexo de sua necessidade de olhar criticamente sobre as coisas e cavar buracos e mais buracos até achar o diamante de uma história exemplar?

Tudo é vivência e todo e qualquer ato é reflexo dessa vivência. Em suma, podemos dizer que a vida imita a arte ou a arte imita a vida, mas isso somente podemos afirmar após apuração e mais apuração, ou mais novelas e mais romances, ou apenas conformarmo-nos de que isso acontece porque são a mesma coisa.

 

Ilana Oliveira
Curiosa, escritora do acaso e por acaso, mesmo sabendo que acasos não existem, e aspirante à jornalista literária que ama a palavra quiçá.