Ele

São 6 da manhã. Cai o orvalho de uma rosa depois de o sereno imperar na madrugada. Abro meus olhos. Sinto um frio nas pernas e vejo que havia me descoberto e chutado os lençóis. Está tudo  muito quieto. Penso em ficar um pouco mais na cama, mas meu coração bobo que só, apenas quer saber de me fazer voar. Me levanto e vou até a janela. De lá, vejo um banco vazio no jardim de cimento. E me lembro da primeira vez que o vi deitado ali. Logo cedo admirando o céu. Encantado com o ar sombrio da noite e a luz que vinha de cada estrela.

 

Coisa que muitos consideram como uma tolice. Perda de tempo. Porém para mim aquilo era encantador. Ver alguém daquela forma tão concentrado perdido em seus pensamentos provavelmente. Desci até onde ele se encontrava. Perguntei quem ele era e o que fazia por ali. Naquele momento se levantou depressa e com uma expressão levemente assustada e acho que também um pouco sem graça. Me disse que era o novo bobo da corte e que só estava vendo os segredos do céu.

 

Achei engraçado. Quase ri e ainda não havia percebido como já estava encantada. Seus cabelos que balançavam de leve pela brisa. Seus olhos tão profundos e intensos me olhavam com minuciosidade. Entretanto, ao mesmo tempo seu olhar era brincalhão. Me sentei ao seu lado e começamos a conversar, a contar histórias engraçadas, de questões que geralmente não paramos muito para pensar e discutir. Coisas da vida.

 

E aí ele me convidou para observar as constelações. Explicou onde estava cada uma, seus significados. Em uma hora percebi que seu rosto estava inclinado em minha direção e aí minha cabeça se voltou para o mesmo lado. Nos perdemos por um breve instante naquele olhar, todavia ele foi tão fugaz quanto um beija-flor indo de cravo em cravo numa tarde quente de verão.

 

Não existia classes sociais, lugares a serem ocupados; só dois seres humanos que começavam sentir algo tão lindo e que não se encontra a qualquer dia. O amor é maravilhoso por isso ele não vê a quem e entra, bagunça tudo seja quem for. Quantas vezes desejei que aquilo que meu coração falava em qualquer brecha pudesse ser real.

 

Ah, se a sorte me desse um beijo para te ter aqui comigo. Nem sempre a gente tem o que quer… Porém, eu como queria andar por aí, sem qualquer preocupação, sem destino com você ao meu lado e me dizendo coisas que me fizessem esquecer de tudo por um instante. Te quero, mas não posso dividir com você minha vida porque estamos destinamos a trilhar caminhos diferentes. E agora me perco ás vezes tendo devaneios como este e sem saber o que fazer… Com vontade de apenas me arriscar e ver o que acontece.

Foto por Gabriel Gonzalez, usuário do Flickr