Distraído

Dizem pra mim que ando distraído, não é verdade. Distraído eu sou desde que nasci, tanto que sequer chorei com o tapinha que o médico me deu, estava distraído encarando os olhos, as lágrimas e o sorriso de minha mãe, que belo sorriso.

Ainda bebê me arrastava pelo chão distraído, quando vi algo no alto que me chamou tanto a atenção que tive que me levantar para poder olhar, foi assim que aprendi a andar.

Ainda pequeno ficava distraído vendo a boca de meus pais, como se mexiam engraçado, “mamãe” eu disse num esforço infantil de os imitar, e assim comecei a falar.

E na escola então? Como me distraía, bastavam uma caneta e uma régua e lá estava a voar com meu avião, foi assim que descobri a usar minha imaginação.

Pra mim sempre foi difícil prestar atenção na aula especialmente quando ela chegava, cabelos pretos, olhos castanhos, sorriso largo e livre de preocupação, assim me lembro da minha primeira paixão.

E de tão distraído ficava até bobo, tanto que um certo menino novo foi quem chamou dela mais a atenção, eu até pedi que ela escolhesse a mim, mas ela disse não, foi essa a minha primeira rejeição.

E com rejeições e acertos os anos passaram e me encontraram mais uma vez distraído e apaixonado, e desta vez a paixão também se foi, mas deu lugar ao amor. Pois eu vivi sim o amor e todas as suas doces vicissitudes. Do calor solar de um beijo e o arrepio na nuca de um eu te amo ao pé do ouvido, ao gosto amargo de uma briga e o frio na espinha de uma discussão. Meu amor é devagar, é real e intenso, mas também é distraído, não pede carona nem vez. E por isso, desta vez, ele também se desfez.

Tenho então vivido distraído, nas tardes descompromissadas de domingo, nas manhãs enjoadas de segunda-feira, no bar com meus amigos, mesmo em casa sozinho a noite inteira. Distraído de beijos e abraços, “Olás” e “Tchaus”, dos críticos, amigos, amantes e inimigos, me distraio sem pestanejar e sem perceber, e mesmo se percebo não volto a mim mesmo, pois melhor é viver distraído e sem preocupação, afinal a vida passa cada vez mais depressa se você prestar atenção.

Texto enviado por Leandro Vasconcellos, aluno de Publicidade e Propaganda.
Texto enviado por Leandro Vasconcellos, aluno de Publicidade e Propaganda.

 

Foto: Guilherme Rossi