Dia do Jornalista no Mackenzie é comemorado com ciclo de debates

Por Anna Beatriz, Beatriz Figueiredo, Domitila Araújo, Enrico Fini, Gabriel David, Gabriel Modesto, Gabrielle Mantovani, Isabella Figueiredo, Julia Wasko, Kathleen Dias, Larrani Guariente, Marcela Cunha, Milena Ogeia, Paola Von Atzingen e Verônica Lopes.

O Centro de Comunicação e Letras (CCL), da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), organizou, no dia 7 de abril, um ciclo de palestras para comemorar o Dia do Jornalista. O evento, coordenado pelo professor André Santoro e pela professora Denise Paiero, teve como tema o “Jornalismo em sintonia com a democracia” e apresentou quatro mesas temáticas que debateram sobre o papel dos jornalistas nos esportes, na política, no cotidiano e na cultura. Os debates aconteceram no formato presencial em auditório com transmissão em tempo real pelo canal da TV Mackenzie no Youtube.

A primeira mesa, organizada em parceria com o Diretório Acadêmico de Comunicação e Artes Mackenzie (DACAM), esteve direcionada ao jornalismo esportivo. Os professores José Alves Trigo e Vanessa Oliveira receberam Filipe Cury, repórter do Grupo Globo, e Rafael Valente, repórter dos canais ESPN, ambos ex-alunos de jornalismo da UPM, além da produtora de esportes da Rede Globo, Bruna Campos.

No início da conversa Rafael e Filipe falaram sobre suas experiências na universidade e sobre o amor ao jornalismo. Já Bruna ressaltou a volatilidade da profissão e sua abrangência. O mediador, professor Trigo, questionou sobre as dificuldades de trabalho durante a pandemia de Covid-19 e os convidados destacaram a importância do esporte durante esse período e como ele pode ser utilizado para tratar de assuntos mais sérios e delicados.

Em determinado momento, Bruna foi questionada pela plateia presente sobre o machismo no jornalismo esportivo e se emocionou enquanto relatava os avanços que vêm ocorrendo no ambiente, já que as mulheres estão cada vez mais participativas. Outra pergunta feita para a produtora, que esteve em Tóquio durante os Jogos Paralímpicos em 2021, foi sobre a dificuldade de cobrir a competição devido à pandemia. Em sua resposta, exaltou a importância do trabalho feito no cotidiano desses eventos e os resultados obtidos, além de ressaltar que os esportes paralímpicos merecem mais visibilidade.

Sobre o futebol feminino, Rafael lembrou os avanços que a modalidade tem tido nos últimos anos, mas deixou claro que ainda há muito terreno para ser percorrido. Outro ponto de evolução, para o jornalista da ESPN, foi a superação das linguagens machistas e objetificação que as jogadoras sofriam antigamente por parte da mídia, times e do público geral.

Outro questionamento feito aos palestrantes foi sobre a relação entre as torcidas de futebol e os jornalistas. Rafael Valente definiu esta relação como uma mistura de sentimentos: “uns querem te abraçar e outros querem te estapear”. Ele também ressaltou que o comportamento dos torcedores varia de acordo com a fase de seus times e os comentários feitos por analistas do canal. Já Filipe Cury relembrou situações em que precisou entrar no ar sem identificação de sua empresa para evitar ataques e comentou sobre a animosidade dos torcedores. O repórter do Grupo Globo que esteve no jogo entre Grêmio e Palmeiras, em 2021, no qual a torcida gremista invadiu o gramado após a derrota de seu time.

Finalizando a mesa, os três palestrantes convidados deixaram alguns conselhos aos estudantes. Eles destacaram a importância de ter persistência, defender seus valores e a democracia e buscar conhecer o seu perfil no

jornalismo, além de ser curioso, ter gosto pela leitura e trocar experiências com profissionais veteranos.

O segundo painel foi mediado pelo professor Fernando Pereira e os convidados foram Cristyan Costa, editor-assistente da Revista Oeste, Lucas Berti, repórter do The Brazilian Report para América Latina e criador do Giro Latino, Lucas Teixeira, que atualmente escreve sobre política e economia para o UOL, e Peterson Prates, assessor político do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), na Câmara Municipal de São Paulo.

O professor Fernando Pereira iniciou a palestra dizendo que o jornalismo é o bastião da democracia e comentou que a profissão nunca foi tão atacada, como está sendo atualmente. A apresentação do tema começou com Lucas Teixeira, que comentou um pouco sobre a sua trajetória profissional e abordou três desafios para o jornalismo político. O primeiro deles é que, ao mesmo tempo em que a internet disponibilizou um acesso e transparência de informações, alguns governos se recusam a passar essas informações para o público e isso prejudica o trabalho do jornalista. O que leva ao segundo desafio, o atual governo é muito hostil e existe relativa agressividade pública institucional ao jornalista. E o último ponto é que se ver no centro do debate público e ser ameaçado por apenas ter questionado um político, é algo assustador. Algumas atitudes que o jornalista pode ter para ajudá-lo nessa questão é fazer uma boa apuração, ter um certo ceticismo- perguntar o porquê de o jornalista estar recebendo tal informação- além de ler bastante sobre diversos assuntos. 

Para Lucas Teixeira, é preciso ter cautela para seguir em frente, referindo-se aos recentes casos de agressão a jornalistas.

De acordo com Cristyan, o futuro do jornalismo é on-line e a convergência de mídias é algo que será muito recorrente no jornalismo futuramente. Também ressaltou a importância da leitura para o jornalista. Ressaltou, acima de tudo, que o jornalista deve ter amor aos fatos, independentemente da subjetividade do profissional: “os fatos falam por si só”.

Lucas Berti apresentou um pouco da sua trajetória profissional e deu dicas importantes para os alunos. Berti disse que não se deve ter medo de empreender no jornalismo, e aconselhou os alunos a aproveitarem a faculdade e os professores. Também ressaltou a importância de uma pluralidade na preparação da formação. Na questão política, Berti disse que é preciso ter cautela. Comentou que a missão do jornalista é defender a verdade e os direitos humanos, valores muito atacados atualmente. 

Peterson Prates também começou se apresentando e disse que o ambiente de assessoria é bastante violentado politicamente. Peterson comentou que precisamos de alguém que estude e conheça política para comentá-la, e não leigos. Comentou ainda que a política tem no jornalismo a ideia de se promover. O assessor ofereceu ainda algumas dicas e sugeriu aos alunos que ampliem as suas possibilidades e não tenham medo de ousar.

O primeiro questionamento feito aos convidados foi se é bom para o jornalista político ter o sentimento de querer mudar o mundo. Teixeira, Berti e Prates deram respostas que caminham na mesma direção, é importante o jornalista, mesmo buscando a imparcialidade, ter o sentimento de transformação social. Já para Cristyan, o ideal é que o jornalista seja apenas o observador da realidade e conte os fatos.

Lucas Berti comentou ainda sobre como lidar com o espaço que a internet e a democratização de informações trazem ao público, ao mesmo tempo em que há discurso de ódio e uma crescente onda de informações falsas sendo confundidas com notícias. Berti respondeu que a credibilidade no jornalismo ainda conta bastante. Ressaltou a importância de uma boa apuração.

Na terceira mesa, mediada pela professora Patrícia Paixão, Beatriz Backes, produtora da Rede Globo, Alexandre Putti, colunista no Portal IG, Fabíola Peres, repórter no Portal R7, e Felipe Bambace, videorrepórter e editor da TV Bandeirantes, foram os convidados.

Cada um dos palestrantes falou um pouco sobre suas experiências como estudantes, deixando claro que os alunos devem aproveitar ao máximo tudo aquilo que a faculdade e os professores oferecem, pois serão sempre aprendizados muito importantes na vida profissional.

Fabíola iniciou dizendo que “jornalismo é a arte de sujar os sapatos”, e comentando sobre a sua experiência profissional e a importância de se ter um olhar humanizado com a população, dando espaço e voz para as pessoas de todas as partes da cidade.

Na sequência, um dos alunos na plateia perguntou qual foi a matéria mais marcante que cada entrevistado produziu. Para Felipe, foi quando esteve em Heliópolis para acompanhar os perigos do cotidiano de uma moradora que trabalhava como gari, na zona leste de São Paulo. Putti destacou o livrorreportagem que desenvolveu, e como se passou por coroinha em um presídio masculino para conseguir relatos verdadeiros de personagens. Beatriz, relatou experiências no início da pandemia, sendo uma das únicas que se mantiveram na redação de maneira presencial.

Ao final, todos relembraram algo muito importante à plateia: nós, jornalistas, não somos a voz do povo, mas somos um meio legítimo pelo qual o povo pode mostrar a sua voz.

Para encerrar o evento, o quarto painel tratou sobre jornalismo, cultura e entretenimento. A primeira convidada a compartilhar sua trajetória profissional foi Paola Churchill, atualmente na revista Vogue. Para ela, é importante fugir do “esperado” e acreditar em pautas diferentes: “se você acredita na sua pauta, vende, se ninguém quiser, cria um blog para as pessoas lerem, mas as pessoas vão ler suas histórias de qualquer jeito”.

Juliana Melguiso é formada em jornalismo há três anos e sempre sonhou em trabalhar com cinema. Com passagem pelas áreas de comunicação interna e externa e fotografia, a jornalista hoje atua como social media da plataforma Omelete e de seu canal de games, The Enemy. Juliana relatou algumas de suas experiências com coberturas de eventos e a responsabilidade em administrar o canal do cliente, tomando muito cuidado com tudo o que vai ao ar, sempre preservando a imagem do canal. Juliana apresentou ainda alguns desafios na cobertura de eventos. 

A terceira convidada a ter a palavra foi Jamyle Rkain. Sua primeira dica foi definir bem os projetos pessoais e buscar as conquistas. Jamyle comentou também sobre seu interesse recorrente por literatura, algo que a aproximou de Gilka Machado e a impulsionaram a organizar o livro “Poesia Completa”, lançado em 2017, unindo todas as suas obras em um só livro. Como estagiária da revista Cultura Brasileira (1964 – 2016), Jamyle deu sua segunda dica: “conheça pessoas, vá a lugares, tenha ligação com pessoas que vocês admiram, gostam, apresentem-se, falem quem vocês são”. 

O jornalista Matheus Mans também apresentou um resumo de sua trajetória. Matheus criou um blog quando ainda era estudante de jornalismo para escrever, em princípio, sobre música brasileira e artistas pouco conhecidos. Até o primeiro ano de faculdade, em 2013, outras oportunidades relacionadas à redação surgiram, e sua área se expandiu para música, literatura e cultura de forma geral. Sua porta para o Caderno 2, do Estadão, nasceu pelo tema de seu TCC, e a partir de uma matéria sobre o cantor Benito de Paula. A partir disso, outras portas foram se abrindo. Apesar de seus altos e baixos escrevendo temas que por vezes não eram de seu interesse principal, Matheus seguiu sua carreira escrevendo sobre o que sempre gostou no site de seu blog: Cultura. Depois de um tempo longe do Estadão, foi convidado novamente pelo jornal para escrever pautas, além de trabalhar como editor para o site Filmelier e cuidar de seu próprio blog. 

Uma das pautas discutidas na mesa foi sobre a lei Paulo Gustavo. Todos os convidados afirmaram que a cultura merece reconhecimento, principalmente no meio da comunicação, visto que por meio do investimento, seja financeiro ou midiático, histórias e, futuramente, artigos históricos, podem fornecer visibilidade a autores que não alcançam reconhecimento. 

A mesa foi encerrada com um bate-papo descontraído e cada convidado teve a oportunidade de lembrar aos alunos a importância em acreditar em seus sonhos. Recordaram ainda que, apesar de parecer um mercado distante, a área cultural oferece diversos nichos diferentes e pode surpreender àqueles que iniciam sua trajetória. Ao final, Jamyle e a mesa lembraram com muita emoção do ex-aluno Guilherme Franco, documentarista e defensor dos direitos humanos, que faleceu em setembro de 2020, aos 26 anos, vítima de câncer.