Dia desses, o prelúdio de uma sentença

Dia desses

– num súbito desespero –

me levantei de um sofrimento

 e corri para o cinema

–  Era o filme da última sessão –

 

Minha mãe que dizia:

Levanta essa bunda da cama 

e vai viver a sua vida! 

Ainda clamava em forma de tragédia

– tão grega quanto Medéia –

Que impotência!

Que impotência!

 

Fui ao cinema

Viver!

a vida de um outro alguém.

Reserva é minha Pasárgada.

Mas mamãe não entende.

– Coitada –

 

Já fui forasteira

e, nos anos 40, enfermeira até cansar.

Já fiz intrigas com Deneuve.

Já tirei Delon para dançar.

Isso tudo antes mesmo

da barriga de uma juventude perdida começar.

 

Eu

nascida na embaixada

e radicada na Suécia.

Tanta vida pra pouca vivida

 na inércia de uma sala de cinema.

 

Mas esse filme da última sessão

era desses que escancara as desgraças.

Sobre crianças que se perdem em falsas graças.

Dessas vergonhas que só criam mais estampa.

– Pois aquele que não tampa os olhos

                                        a boca tampa –

 

 Ao rolar dos créditos

– como sete trombetas a reverberar –

uma velhinha

sem nenhuma flor

assim falou:

Você que ainda é jovem

veja lá se ajeita o mundo. 

E tão solitária quanto eu

pôs-se a andar rumo ao seu outro mundo. 

Preso em outras dimensões

que nem mesmo a memória

foi capaz de sustentar.

 

Coisa curiosa.

Orgulho-me da velhinha que nem conheço.

Ela, esperando uma tal de Geena

todo esse tempo

sem nem chiar

tamanha dedicação

– eu não –

Uma avó descabida

e uma neta que de tão ausente

sempre presente.

 

Eu

 – que não sou boba –

coloquei-me a anotar.

Vai que um dia vira história

de outro bobo escutar.

 

E minha mãe ainda me diz

– na raiva deixa escapar –

que eu não nasci para brilhar.

Eu brilho, ora essa!

Brilho por interpostos.

Como toda mulher do fim do mundo

– por seus opostos –

 

 

 

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Amanda Pickler

Curitibana, atriz e estudante de jornalismo. Amo uma boa música de fossa, filme europeu que ninguém entende e livro de sebo daqueles que cheira a mofo.