DESCANSAR

Des-can-sar. Ta aí uma palavra que sempre foi o avesso do que sou eu. Ainda me pergunto se aqui, nesse planeta em que vivemos, alguém, qualquer um, consegue desacelerar e descansar. Tudo corre. Tudo não dorme. Tudo não sabe esperar. Tudo atropela o pensar, que não tem nem tempo de se concretizar em ideia. Tudo conspira e ao mesmo tempo idolatra o tempo, que aprisionou e rendeu os que aqui vivem. O tempo é o inimigo, mas também é o amante. Hoje, o tempo é um híbrido de batidas constantes, no qual o tempo todo é hora de qualquer coisa e ao mesmo tempo, não é hora de nada. O relógio pulsa em cada milésimo de segundo ignorado, regendo o que não vemos e o que não percebemos passar, por sempre estarmos ocupados demais com qualquer coisa.

Há tempo de trabalhar, correr, comprar, estudar, dirigir, falar, concorrer, disputar e até praticar o que antes já se havia aprendido. Há tempo de tudo no nosso mundo; menos de parar. Não temos tempo de respirar e perceber que se respirou. Não temos tempo de olhar para o céu e se perder. Nem de acordar e lembrar o porquê se vive. Não conseguimos mais deitar e sentir a rítmica fiel das batidas do coração. Nem perceber que o mundo ali fora é muito mais do que apenas nós mesmos.

O mundo fala. Ouve. Conversa. O mundo vê. Sente. Respira. Exala perfumes e sensações codificadas em forma de gente. Gente que precisa mais do que o nosso dinheiro ou a nossa hipócrita migalha de atenção. O mundo precisa que a gente PARE, porque o perceber é pressuposto pelo parar. Quando percebemos a dádiva da vida, a riqueza de se falar olhando nos olhos e a indecifrável sensação de se contemplar um sorriso sincero, então começamos a desacelerar e a entender que na verdade o que importa não é correr para que nem um segundo seja desperdiçado, mas parar, para que cada segundo seja intensamente vivido.

Uma vez me disseram que existe tempo para todas as coisas debaixo desse céu que nos agracia. O que não me disseram é que não é tão fácil perceber o ritmo desse tempo e que ele não volta jamais. O que volta é a vontade de voltar no tempo e com isso o sonho do que poderia ter sido vivido se tivéssemos parado para perceber.

Eu olho ao redor e só o que eu vejo são pessoas cansadas, correndo de um lado para o outro, sem nenhum lugar para descansar. Pessoas que não tem para quem correr, nem para onde ir ou em quem confiar. A verdade é que nenhum de nós tem. A menos que… Te percebamos. Se assim o fizermos então encontraremos O descanso para as nossas almas cansadas e carregadas de pesos que passamos a colecionar pelo caminho. Só quando paramos e nos rendemos ao Seu tempo, é que começamos a ser guiados por Você, que está acima do tempo. Quando Te deixamos ser nosso travesseiro, a Sua vida de Cruz nos conduz pela Sua dança, sem cargas pesadas demais. E assim, podemos parar e descansar.

Descansar pode soar como preguiça num mundo tão, aparentemente, produtivo, mas a verdade é que saber descansar e parar são uma virtude.  Virtude que não se aprende produzindo, mas parando, porque aqui, descansar significa caminhar.

 

 

 

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