Crítica Nós – Somos todos iguais ?

Por: Beatriz Martins e Leonardo Alves

A primeira coisa que o nome Jordan Peele nos remete é a fantástica obra Get Out (Corra, 2017), em que o autor apresenta seu domínio em roteirizar e dirigir um filme de “terror-social”. Será que em seu filme Us (Nós, 2019) essas peculiaridades se sustentaram?
Em Nós é narrada a história de uma família que está viajando para passar as férias em Santa Cruz, uma praia nos EUA. Desde o começo do filme há uma tensão no ar, não parece uma viagem divertida, feita por uma família comum. Essa tensão fica mais clara nas cenas de Adelaide (Lupita Nyong’o), a matriarca da família, que aparece claramente atormentada, por um trauma de sua infância, mostrado no início do longa.

Nós é o segundo filme de terror de Jordan Peele. Créditos: Omelette (reprodução)


Esse primeiro ato cumpre bem seu papel, construindo um clima de tensão gradativo, juntamente com um desconforto constante, e quando o segundo ato é iniciado todo aquele desconforto toma forma, com as sombras aterrorizantes que entram em cena. Para não entregar demais, digo apenas que a ideia de um vilão espelho é amedrontadora, pelo menos para mim. O medo que temos de “nós mesmos” supera qualquer medo do outro, e nisso Peele demonstra toda sua preciosidade, ao trazer uma sacada tão simples e ao mesmo tempo genial. O terror é certeiro, as aparições dos antagonistas chegam a dar arrepio na espinha, porém há demasiadas quebras no clima de tensão com frases de alívio cômico, protagonizadas, em sua maioria, pelo pai da família, Gabe (Winston Duke). O personagem faz piada até diante de um ataque a sua vida, e essas atitudes atrapalham na imersão e na tensão que sentimos. 

Técnica impecável 

As interpretações são de longe o ponto alto, destacando-se Shahadi Wright  que, enquanto Zora entrega expressões de medo e raiva convincentes, e como sombra tem um olhar penetrante e um sorriso perturbador, que nos assusta de forma implacável. Já Lupita Nyong’o, como Adelaide traz uma sensação de terror extremamente contagiosa, que mantém o medo, mesmo quando nada está acontecendo aparentemente. Já como sua sombra tem uma atuação impecável, que entrega um sentimento de horror, e mesmo assim consegue carregar dor e vulnerabilidade na voz. Injustamente, sua atuação não apareceu nas premiações, mas com certeza será lembrada entre as clássicas de terror. As demais cumprem perfeitamente suas funções. Há um destaque também para Elisabeth Moss, que não tem tanta importância na trama, mas traz uma cena agonizante.

O filme conta com a vencedora do Oscar, Lupita Nyong’o (12 anos de escravidão, 2013). Créditos: Omelette (Reprodução)

 A fotografia consegue entregar momentos de genialidade, como a cena de dança/luta, e cumpre seu papel de trazer desconforto muito bem. Realce para a trilha sonora, que nos leva de humor a terror em segundos. 

Somos todos iguais? 

Nós é um filme de terror com uma premissa inovadora , mas não é só isso. Já é padrão nos filmes de Peele que haja críticas sociais bem marcadas. O próprio nome do filme remete a isso, Us significa nós, mas também é a sigla de United States ( Estados Unidos), país onde o autor vive, e que passa por inúmeras crises de caráter humanitário ultimamente. Com a eleição do presidente Donald Trump, foi aberto um debate sobre imigrantes, principalmente latinos, no país. Muitos são contra a imigração de pessoas, mesmo que estejam fugindo de guerras. O filme aborda esse tema trazendo a pergunta: “E se fossemos nós?”, porque poderia ser. Quando uma sociedade vive bem e com qualidade em detrimento de outra, não é de se esperar que quem está sendo prejudicado se revolte? Pois, parece que quem está “por cima” só repara em que está “por baixo” se algo incomodar a sua caixinha de sapatos, portanto o ódio dos menos favorecidos é completamente compreensível, até mesmo correto em alguns pontos. 

Por que alguns tem tanto e outros não tem nada? Será que somos realmente todos iguais? O longa nos faz refletir sobre a desigualdade social. Como não ligamos quando nosso igual está passando por tamanhas dificuldades, mas se ele reivindicar as mesmas coisas que temos, os enxergamos como vilões. Jordan consegue nos fazer ponderar sobre questões de consciência de classes, esfregando a pauta em nossa cara de maneira natural, com o uso de metáforas. 

Em suma, Nós se mostra como mais uma obra completa e complexa de Jordan Peele. Cumpre o papel que esperamos o autor entregar : Aterrorizar e Refletir. 

Gosta de criticas de filme? Na Etc e Tal você encontra criticas de todos os gêneros. Dá uma olhada nessa critica da série  “Sintonia”, do Netflix.