Bala de troco

 

Existiam várias moedas escondidas num velho porta-níquel. Estavam lá prontas para serem trocadas por doces para o irmão mais novo. Um trato, um acordo de silêncio, assim ninguém ficava sabendo das saídas da irmã na calada da noite. “Pra caber tanto doce nessa barriga e não se enjoar só pode ter verme! Credo! ”- pensava, mas logo se repreendia por estar falando igual sua mãe.

O garoto saía correndo em busca de suas guloseimas, assim que era pago na manhã seguinte pela irmã fujona. Esbarrava toda santa hora no velhinho mão-de- vaca do bairro, este por sua vez entregava (quando queria pagar) cruzados rasgados, por terem sido puxados rápido demais do bolso apertado para Seu Antônio, dono da vendinha da esquina, que nunca tinha troco e sempre dava bala mofada aos clientes que pagavam na hora.

Seu Antônio fechava e anotava o valor arrecadado no dia na última nota que sempre ficava presa no caixa, superstição de família, achavam que isso atraía mais bufunfa. Ele guardava tudo num saquinho dourado, como lhe fora ensinado, e levava pra casa, onde era deixado num cantinho entre a cama e o colchão de solteiro. Mas, naquele dia, o pano dourado do saco estava rasgado após vários anos de uso contínuo e uma moeda caiu no meio do caminho, rodopiou e tilintou na tampa de ferro do bueiro, por pouco não caiu no esgoto, mas ficará ali à espera de alguém que a encontrasse. O dia amanheceu e o velho ranzinza voltara a vendinha, dessa vez queria pão e mais pó de café. Afinal o dia iria ser longo e árduo no parque dando o pão aos pombos. Quando perguntado sobre pagar a conta pendurada de vários meses, respondeu:- “Devo, não nego, pago quando quiser” e saiu tão depressa com a sacola que nem parecia carregar 74 anos nas costas. Durante sua volta achou a moedinha perdida por Seu Antônio. Saiu aos pulos tortos e desengonçados atravessando a viela e mal percebeu o bondinho pontual das 15h que descia a ladeira à toda velocidade. A moedinha de poucos cruzados não pertencia mais ao velho, agora pertencia a Caronte, que em tempos de crise como esse recebia qualquer coisa, não só óbolo*.

 

*moeda grega oferecida à Caronte, o barqueiro dos mortos na mitologia grega.

Foto por: Giovanna Oliveira Marino