Até que ponto a moda é democrática? SPFW pelos seus convidados

Do dia 27 a 31 de agosto aconteceu a edição N44 do São Paulo Fashion Week (SPFW), o evento aconteceu na Fundação Bienal no Parque Ibirapuera, e nós da Redação Virtual estivemos lá. O espaço foi ocupado por diversas marcas patrocinadoras, entre elas: A Natura que teve o maior número de visitantes e repercussão durante o evento, Cardel 011, Cacau Show e entre outras.  Além disso, a SPFW contou também com a exposição “Lino + Miro – A construção da imagem” trabalho idealizado em conjunto pela estilista Lino Villaventura e o fotógrafo Miro, e “Essência” o ensaio fotográfico de Rodrigo Bueno.

A sociedade tem passado por diversas dinâmicas sociais, e isso tem alcançado os mais variados setores que a compõe, e um deles é a moda de vestuário.  Para muitos ainda é considerada apenas algo efêmero, mas de maneira geral tem ganhado relevância e reconhecimento da sua importância para formação da identidade e individualidade do ser humano. Muitos até dizem que está ocorrendo um processo de “democratização”, mas até que ponto ela pode ser considerada democrática? Enquanto os diferentes estratos sociais continuarem segregados? Ou enquanto a moda puder continuar exercendo seu papel de diferenciação a favor da classe alta?

É nesse contexto de “democratização” que o SPFW entra, podemos observar que a representatividade se faz cada vez mais presente nas edições do evento. O desfile da Ronaldo Fraga teve grande destaque, e o tema da igualdade social foi apresentado num cenário praiano, repleto de perfis que não eram considerados padrões de passarela, com homens e mulheres de todas as idades e formas físicas: peles alvas e negras, idosos, deficientes e plus size.

Entrevistamos alguns convidados do SPFW para saber qual era a visão deles. Um dos questionamentos feitos era como eles achavam que a moda estava sendo abordada nesta edição, a Luh Sicchierolly respondeu: A moda antes tinha um padrão que era um muito difícil ser quebrado. E pelos desfiles que eu assisti os estilistas perceberam que a moda não é apenas para gente alta, magra e branca. E eu amei, porque acho que moda é isso: diversidade.”. A Paloma Oliveira ressaltou: “Nesta edição estão trabalhando com as questões dos refugiados, tribos e as diferentes formas de ser. A Natura mesmo está falando sobre isso   (Toda beleza pode ser).”

A maior parte do público tem percebido este novo posicionamento das marcas, que estão buscando romper os estereótipos, então como o universo da moda pode fortalecer cada vez mais a representatividade? Foi isso que perguntamos.

“Acho que na rua, muitas pessoas estão aderindo ao estilo streetwear. Da rua para as passarelas, e as passarelas se voltam para as ruas.” – Luh Sicchierolly

“Nos desfiles, por exemplo, tem uma parte do público que fica sentada e outra que fica em pé, se liberassem pelo menos um dos setores para o público geral seria muito mais legal, ou se não fazer os desfiles fora mesmo e não aqui no SPFW que você precisa de convite.” – Maria Flávia.

“Tem todo potencial para isso, porque a moda é como uma vitrine. Todas as marcas estão apostando em modelos mais normais e comuns, Gloria Coelho foi uma delas.” – Paloma Oliveira.

Mesmo a moda passando por esse processo de democratização, ela ainda pode ser considerada elitista. Alguns dos entrevistados concordaram com esta afirmação, já outros não. Para Van Loureiro existe uma diversidade de fato, porém passageira: “Tem uma diversidade maior, mas acredito que isso será moda também. Não queria que fosse assim. Tenho estudado muito sobre isso, e existe espaço para todos e a representatividade deveria ser de todos os públicos.”.

Van Loureiro ainda acrescentou dizendo “O ápice da moda ainda é muito elitista, as pessoas têm muitas referências que não são próximas da sua realidade. Está mudando, porém ainda falta muito. Existem pessoas produzindo coisas mais abertas e conscientes, mas a moda surgiu para ser elitista e diferenciar as pessoas.”.

A Paloma Oliveira que é Design de Moda também acredita que existe um elitismo e viu de perto as dificuldades: “A moda ainda é elitista, quem começa de baixo tem pouco acesso. Hoje você precisa ter muitos contatos que sejam acima de você. Isso deveria mudar, e principalmente dar mais valor para quem estuda moda.”.

Entretanto, para alguns a moda não se encaixa nesse contexto elitista, a Luh Sicchierolly opinou: Não concordo. Você não precisa de cinquenta mil para se vestir e sentir bem. Moda também é ser confortável, e não apenas seguir tendências de estilistas.”.

De fato a moda foi criada para causar desigualdades sociais, mas no século XVII com o auge da burguesia e a era do modernismo esse cenário passou por modificações. Atualmente o mundo da moda está cada vez mais complexo, o vestuário tem muito mais a ver com identidade e significados do que com filiações sociais. Hoje a alta costura já não tem tantas condições de dizer o que é “in” e o que é “out”.

Mas não podemos ignorar que ainda existem muitas barreiras a serem quebradas. Há ainda um longo caminho para de fato podermos afirmar que a moda se tornou realmente democrática. Os espaços precisam ser ocupados por todos, e para isso é necessário que sejam criadas as devidas condições. Por exemplo, deveria ser mais simples para uma pessoa conseguir ir ao evento do SPFW, e principalmente para assistir aos desfiles que são ainda mais restritos. Para um acesso maior à moda, é preciso que ela esteja mais aberta e nós também, pois a moda e as marcas são um reflexo da própria sociedade.

Texto e fotos por Thaina Fernandes

Sagitariana que sou, só saio de casa se for para causar! Escrever é uma das minhas paixões, que disputa o primeiro lugar com moda, memes e comida.