As estampas da Maria Filó: A POLÊMICA!

Recentemente a marca Maria Filó lançou uma coleção com estampas que ilustram mulheres negras na época da escravidão, servindo mulheres brancas e trabalhando entre palmeiras. Obviamente, as peças causaram polêmica após uma consumidora fazer um post no Facebook apontando o problema da estampa da coleção. O post teve tanta repercussão que até a atriz global Taís Araújo se posicionou sobre o assunto dizendo que “A escravidão não pode virar “pop”, não pode ser vendida como uma peça de moda. A moda nos representa, nos posiciona, nos empodera, comunica quem somos. Não se pode fazer dela uma vitrine de uma história da qual devemos nos envergonhar.”

A marca se defendeu dizendo que as estampas são inspiradas nas obras do artista francês Debret, que veio para o Brasil no século XIX com a Missão Francesa para ser o pintor da história. A polêmica aumentou após a pesquisadora e artista Patricia Gouvêa apontar que as modificações feitas deixaram as imagens ainda mais racistas. Para falar um pouco melhor sobre o assunto, buscamos a palavra da professora doutora de História da Arte do curso de jornalismo no Mackenzie, Mirtes de Moraes. Segundo a professora, quando alguém veste a peça, parece que a ideia (da escravidão) está sendo reforçada. “É complicado, porque as imagens de Debret são importantes pra gente descontextualizar. Ele olha tudo isso com estranhamento, de uma forma distorcida”. A professora Mirtes ressalta que toda vez que formos pensar no pintor, isso deve ser colocado de uma forma bem cautelosa – já que ele representou o Brasil – e explicar as relações  estabelecidas ali.

Ela continua “Agora, estampar uma roupa é muito complicado. Sem contexto nenhum dessas relações é muito problemático, acho que reforça essas questões raciais”. Na opinião da professora, a coleção teria sido mais feliz caso tivessem optado por fazer peças com faixas e escritas que problematizassem a questão da escravidão – “Toda questão que se fale sobre escravidão, que foi uma realidade do Brasil por muitos anos e é um assunto muito delicado, tem que ser tomado com muita cautela na hora de expor”.

Não sabemos se a Maria Filó agiu com certa inocência diante das ilustrações da coleção ou se eles foram muito afoitos e não pesaram as consequências que poderiam (e foram) geradas, mas é certo que alguém deveria ter pensado e escolhido melhor uma estampa que se relacionasse com o contexto “Brasil”. Nosso país tem uma dívida enorme com a questão da escravidão – e hoje, o movimento negro se intensificou, tornou-se mais forte e com razão, então colocar tudo isso numa roupa da forma que foi feito e “sair andando” é algo problemático.

 

Texto por Isabella Banzatto.