Aos desiludidos e desesperançados

Aos  desiludidos e desesperançados, àqueles cujo ânimo encontra-se desanimado, conto uma história que encontrei perdida nos cantos escuros da memória…

Quando eu tinha sete ou oito anos, todos os meninos da minha idade tinham um Play2. Eu não tinha um Play2. Tinha apenas um Play1 velho e sem graça.  Enquanto meus amigos viviam comentando sobre a jogabilidade incrível do GTA San Andreas ou dos gráficos “super realísticos” do então novo Winning Eleven, eu era forçado a jogar todos os dias, aquele mesmo jogo de futebol ridículo com narração em japonês (que hoje tenho saudade).

Por ser criança, não tinha dinheiro suficiente para comprar o videogame. O engraçado é que ainda hoje eu não possuo dinheiro para comprar uma coxinha, quanto mais um videogame – olhando pela ótica financeira, não deixei de ser criança!

Envenenado pela necessidade de satisfazer minha própria necessidade, pedi desesperadamente ao meu pai, que concedesse o desejo de seu próprio filho. Ele, seguro de si, disse que me compraria o tal PlayStation. Naquele instante, me senti a criança mais feliz do mundo.

No dia seguinte, cheguei da escola intoxicado pela vontade de entrar no meu quarto e ver o tão sonhado videogame conectado à televisão. Mas ao chegar ao quarto, bateu-me ao coração uma súbita tristeza, pois meu tão sonhado Play2 não havia se tornado real. No canto, embaixo da TV, estava apenas meu velho videogame.

Questionei meu pai sobre a ausência daquilo que tanto desejava. Ele, justificando-se, disse que não havia tido tempo para realizar o meu desejo, mas que no dia seguinte ele o faria.

E então veio o dia seguinte e com ele, embrulhado em um papel de presente, uma nova decepção. Mais uma vez subi as escadas para o meu quarto, inebriado pela vontade de jogar um jogo novo e, novamente, desmoronei-me ao sentir o gosto triste do desapontamento.

Outra vez questionei meu pai, e novamente ele me deu a mesma resposta. Que não havia tido tempo e no dia seguinte o faria.

Então, passaram-se semanas. Todos os dias, repeti religiosamente o ritual de subir ansiosamente as escadas que davam para o meu quarto. Em cada um deles, não encontrei o que queria. Antes, encontrava apenas minhas tristezas e frustrações.

Até o dia em que me vi desiludido e desesperançado. Encontrava-me rendido, vencido pelas desilusões da vida. Naquele dia, subi as escadas carregando nas costas não só o peso dos livros e cadernos da mochila, mas também as toneladas de decepções que se haviam impregnado a mim. Meu olhar cabisbaixo viu meu pai sentado em minha cama, com um controle nas mãos, e um surpreendente PlayStation2 conectado à TV. Abracei e beijei meu pai, depois o esqueci. Dediquei anos da minha vida àquele videogame.

Quando me sinto desacreditado e decepcionado, gosto de lembrar-me desta história, pois ela me mostra como a vida funciona.

É triste perceber que todos estão alcançando seus objetivos e nós estamos ficando para trás. Dá um certo medo ver nossos amigos namorando, noivando e casando, enquanto permanecemos atados à solidão. Uma certa angústia nos invade quando percebemos que nossos colegas estão todos trabalhando, enquanto não conseguimos nos livrar do abraço apertado do desemprego. Quando estas situações borbulham dentro de mim, lembro-me sempre do meu videogame. No momento em que eu já havia desistido, fui surpreendido com a chegada dele, e então consegui passar de fase.

Por isso, amigo leitor, se você se encontra desiludido e desesperançado, não se preocupe, erga-se e não desista! Pode ser que demore, mas no final, o PlayStation sempre chega.

Texto por: Matheus Siqueira

Que tal um estágio no exterior?