Ao meu colega, do outro lado

Foto: Reproduçã/MorgueFile
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Caro colega,
Como vão as coisas pelo outro lado da cerca?
Hoje descobri o seu desconforto com o meu posiocionamento ideológico. Sabe, eu também não era lá muito fã dos seus depoimentos que, às vezes, beiravam a desumanidade. Contudo, me mantive firme. Não poderia mesmo conviver apenas com pessoas complascentes com minha utopia. E digo utopia no melhor sentido que se pode atribuir. Aquele sentido motor que nos impulsiona e nos tira da nossa pequenez. A utopia de Birri atribuída por tantos a Galeano, sabe? Bom, talvez não. Pelo o que conheço de você, nada ligado a este lado da cerca te desperta interesse. Calma! Eu não vou mais divagar, prometo…
Me impressiona como as ideologias têm sido usadas de maneira baixa e barata para disseminar o ódio e a separação entre pessoas de modo tão raso e maniqueísta. Aos meus olhos, a ideologia aparece, seja de qual lado for (dos muitos lados que tem), para ser o motor de uma sociedade melhor. Eu vendo meu peixe, você o seu e, com isso, podemos avançar na melhora da estadia humana por essas terras. Mas acredito que pessoas como você prefiram crer que a ideologia serve para tripudiar sobre aqueles de visão divergente. E, em seu caso específico, para promover o ódio e a discórdia entre os mais oprimidos e mais surrados por esse sistema.
Eu, cordialmente espero, que a viseira lhe caia dos olhos. Desejo um pouco mais de amor em seus dias. Tenho certeza: com amor, seu semblante sério e duro passará a abrigar mais sorrisos. E de sua boca sairá muito mais empatia para com o outro. No mais, preciso lembrá-lo, essa cerca quem construiu foi você e todos os seus. Ilhas de isolamento social em nome da “verdade” e contra a “ameaça”. E, eu, deste lado da cerca, espero muito mais igualdade. Muito mais lados sem cercas. Muito mais diferença, pois é nessa que está a grandeza de ser.
Atenciosamente,
Alguém.