A Jornada do herói

A jornada do herói é um padrão presente em todas as historias. Além de poder ser aplicada na escrita, a jornada também pode ser percebida na vida. Joseph Campbell em seu livro “O herói de mil faces” foi o primeiro a definir essa estrutura, que pode ser alterada de forma flexível e infinita.

Mas afinal como funciona essa estrutura?

Ato 1 – A partida

                    16647754633_505d14c644_n Matrix

O mundo comum

No inicio de Matrix vemos o herói, Neo, em sua vida comum em que ele trabalha durante o dia e a noite é um hacker. O mundo comum é o mundo cotidiano do herói. Esta fase serve como base de comparação para a mudança que a historia irá tomar. Pode ser levantada uma questão dramática para a historia aqui também. É nesta fase em que os heróis são vistos pela primeira vez. É aqui que somos apresentados aos seus problemas internos, externos, além de sua classe social, sua educação, experiencias e hábitos. É o momento em que o público se identifica com os personagens. O mundo comum é um bom lugar para apresentar o tema da historia.

Chamado a aventura

O chamado a aventura de Matrix é um dos mais marcantes da historia do cinema. Todos conhecem a historia da pilula azul X pilula vermelha. Em que a azul levaria o herói, Neo, para o conforto do mundo comum, de sua casa, em que ele viveria sem nunca saber a verdade. Já a outra pilula levaria o herói para fora da Matrix.  Além disso, uma historia pode ter mais de um chamado a aventura. É o chamado a aventura que coloca a historia em movimento, tirando o herói do mundo comum e estático. É um ponto de mudança. O herói pode ser levado para isso através de:

  • coincidências e sinais;
  • por um personagem com arquétipo de mentor (como em Matrix) ou arauto (arquétipo de mudança);
  • uma mudança brusca como uma perda ou o surgimento de uma necessidade;
  • aviso para heróis de tragedias, como uma profecia ou uma visão de algo ruim que acontecerá.

 A recusa do chamado

Neo é um herói voluntário que quase almeja que algum chamado o tirasse de sua vida comum. Neo já estava com uma inquietação pela verdade antes do aparecimento do mentor (Morpheus) que o convida para descobrir a verdade. No entanto, ele sente medo quando os agentes estão se aproximando dele e ele recebe uma ligação de Morpheus. A recusa ao chamado quando muito prolongada pode trazer tragedia para a vida do herói. Porém, é algo natural e representa o medo intrínseco que todo ser humano tem da mudança. Embora nem todos os heróis que refutam o chamado sejam perdidos. Um herói também pode recusar um chamado para aceitar um outro.

“Qualquer que seja, a casa por ele construída será uma casa da morte; um labirinto de paredes ciclópicas construído para esconder dele o seu minotauro. Tudo o que  ele pode fazer é criar problemas para si próprio e aguardar a gradual aproximação de sua desintegração.”

Auxilio sobrenatural

O primeiro encontro da jornada acontece, na maioria das vezes com essas figuras que estão presentes na historia para proteger e auxiliar o herói. Em Matrix  Morpheus representa essa ajuda sobrenatural. Ele traz Neo para a aventura e logo depois o explica como funciona o novo mundo à qual ele adentrara.  O auxilio sobrenatural pode vim de alguém que quer testar o herói (o guardião do limiar) ou por alguém que quer ajudar no crescimento do herói (um mentor). Eles são fontes de sabedoria e avisam o herói e o público do que está para ocorrer.

Algumas historias podem ser impulsionas por um mentor quando o herói recusa o chamado.

Primeiro limiar

O primeiro limiar ultrapassado por Neo foi ele ter aceitado a pilula vermelha que leva para fora da Matrix. Este é um ponto de virada, em que o herói adentra a um novo mundo. Na maior parte das historias neste trecho aparecem os guardiões do limiar que pretendem impedir que heróis não merecedores ou impuros realizem esta travessia.

Segundo Campbell, o herói que realiza essa passagem entra no ventre da baleia. “Esse motivo popular enfatiza a lição de que a passagem do limiar constitui uma forma de auto-aniquilação.”

Ato 2 – A iniciação

             foto psicose Psicose

O caminho de provas

Nesta fase da jornada o herói faz aliados e inimigos e passa por provas. As provas podem ser uma continuação do treinamento do mentor. É aqui que o contraste entre o mundo comum e o mundo especial é mostrado. É comum que os heróis caiam em armadilhas nessa fase. Podem surgir rivais e equipes.

Aproximação da caverna secreta

É um momento em que os heróis se preparam para a provação.

A apoteose (a provação)

Hitchcock realiza uma coisa muito inesperada e lembra da beleza da jornada do herói. A beleza consiste na infinidade de mudanças que podem ser feitas nesta estrutura. Em psicose ele a heroína não sobrevive a esta face. Nesse momento é necessário que haja um momento de morte e de ressurreição, mas nossa heroína (Mary Crane) é assassinada e não renasce como nas historias tradicionais. A partir dai o público tem que escolher um novo herói e só resta o herói sombrio, Norman Bates. Hitchcock faz a plateia se identificar com a personagem e logo depois a mata. Isso resulta em uma cena fenomenal que entrou para a história do cinema.

A bênção ultima

Em psicose não há uma recompensa, pois a heroína não sobrevive a provação. Mas na maior parte das historias há uma recompensa ou premio pelo herói ter conseguido enfrentar a morte na provação.

Ato 3 – O retorno

                     a origem A origem

O caminho de volta

O caminho de volta é um ponto de virada. Um limiar a ser atravessado. Os heróis são perseguidos.

Ressurreição

Assim como na provação é preciso um momento de vida e de morte nessa fase da jornada. No filme “A Origem” o herói parece morto, perdido no limbo. Mas ele consegue renascer como um verdadeiro herói.

Retorno com elixir

Esse é um filme com um final aberto. Pois no fim, o pião que girava sem parar no mundo de sonho não é mostrado parando. Isso não quer dizer que não tenha caído, mas não quer dizer que tenha. Esse é o desfecho da historia.

A jornada do escritor (Christopher Vogler)

“Confie no caminho”, essa é a mensagem que Christopher Vogler passa para os escritores no fim de seu livro.

Fontes:

O Herói de mil faces, Joseph Campbell

A jornada do escritor: estrutura mítica para escritores, Christopher Vogler

Fotografias por : Edvaldo SouzaBrandi Korte, Pierre-Alexandre Garneau .