A insustentável leviandade do ser

Está insuportavelmente quente. E o tédio deixa tudo insuportavelmente quente. Ela olha a previsão do tempo e descobre que vai chover, mas não, não vai chover. Não tem cara de que vai chover. E está insuportavelmente quente. Não que estivesse tudo bem se chovesse, ela odeia chuva. Ela odeia calor. Ela está naquela fase em que se odeia tudo. E nessa fase ela só come e come.

Come até o estômago doer e a tortura de uma noite mal dormida começar. Então ela vomita uma comida desnecessária que não tem mais espaço nela mesma e nem motivo para estar presente. Porque comida serve para fornecer nutrientes. E energia. E glicose que se transforma em ATP que vira energia. Ou algo mais ou menos assim que aprendeu nas aulas de química, anos atrás – ou seria biologia? Algo assim muito importante para manter o ser humano vivo e que para ela virou uma obsessão, especialmente em tempos assim em que nada vale a pena. Porque a vontade de comer mascarada de fome não serve mais para ganhar nutrientes. E ela se pergunta para onde vai toda essa energia. Vai ver que é isso que ela vomita pra fora. Não as calorias que a deixam gorda, mas as calorias que lhe dão energia

e vontade de sorrir.

Ela vomita, sente uma falsa euforia de alívio. Mas a dor verdadeira persiste. Porque a dor da comida que foi comida em uma compulsão alimentar emocional irracional, a dor da comida que foi comida é na verdade uma torpe tradução de todos os seus sentimentos de desespero e vazio. A comida como forma de preenchimento de um vazio inexplicável. É engraçado como ela deposita todas as suas esperanças no biscoito de chocolate mole e velho – velho, mas é de chocolate – que lembrou de ter guardado milagrosamente no fundo do armário.

E foi como a melhor notícia do dia. Que dia feliz! O biscoito que tinha deixado pra lá nos tempos em que as coisas valiam a pena e que, portanto, um biscoito de chocolate não valeria a pena. O biscoito que naquela época simbolizava sua vitória contra o excesso. E que agora representa toda a sua derrota e humilhação. Porque logo depois de comer o biscoito já vem o turbilhão do arrependimento.

Da culpa.

Do desgosto.

E se sente gorda e feia e suja e fraca e porque não lembrou desse maldito biscoito antes? Talvez assim não teria comido as três bolas de sorvete e o McDonald’s e a torta de banana e a torta de brigadeiro crocante e a caixa de bombom e a pizza e o cacho de uva numa derradeira maneira de saciar a vontade de comer uma coisinha gostosa. E talvez agora não estaria passando mal de tanto comer. Teria comido o biscoito e depois ido pra aulinha de CrossFit e não teria passado o dia inteiro na cama, comendo, vomitando, comendo, mofando na Netflix e chorando.

Tudo, na verdade, se resume ao seu eterno medo de não saber o que fazer. O medo crônico que desde pequena a paralisa e consome e liberta sua draga interior que devora tudo aquilo que há na vida antes que a vida a devore. E olhando fotos antigas, vê-se ora gorda, ora magra, ora gorda, ora magra. Exatamente como uma sanfona. Que nem mesmo Dominguinhos haveria de tocar.

Um salve ao século vinte e um e seu exército de eternos infelizes!

 

Já conhece Curaçao?

Amanda Pickler
Curitibana, atriz e estudante de jornalismo. Amo uma boa música de fossa, filme europeu que ninguém entende e livro de sebo daqueles que cheira a mofo.