A CRUZ

Sei que ainda não vi tudo o que eu quero ver. Nem o que eu preciso. Sei que ainda não senti o que eu quero sentir. Nem o que eu preciso. Sei que ainda não disse o que eu quero dizer. Nem o que eu preciso. Mas por quê? Por que eu não disse? Por que eu não vi? Por que eu não senti? Eu poderia ter abraçado, beijado, tocado. Eu poderia ter dito. Poderia ter visto. Poderia ter me importado. Mas não. Eu só vejo a mim mesma; em todos os lugares. Tudo se transforma em espelho quando olho ao arredor. Não sinto mais. Não vejo mais. Não falo mais. Não ouço. Não me importo. Só vejo. A mim.

Por um segundo eu não vejo nada além de mim mesma. Então enquanto caminhava na terra dos espelhos Você me avistou e de longe veio correndo em minha direção. Eu não percebi Você. E nem podia. Estava ocupada prestando atenção em mim. Não podia ouvir que de longe Você gritava o meu nome. Não podia Te ver. Até que meu corpo começou a derreter. Quanto mais Você se aproximava, tudo o que um dia foi congelado, agora florescia, lentamente, como flores na primavera. Eu ouvi a Sua voz. Ela era firme e doce. Você me desacelerava. E quando Você chegou bem perto eu me arrepiei por completo, minhas pernas ficaram bambas e naquele instante eu percebi que nunca havia visto TANTO o meu reflexo. Você era o espelho que eu nunca havia contemplado. Era tão diferente dos meus. Não me via daquele jeito. ‘Quem sou eu agora?’. Então Você me tocou e eu caí. Caí com a boca no pó e vi Seus pés. Foi ali que descobri o meu lar. Ali descobri quem eu era. Quem eu não era. Quem eu gostaria de ser. Queria ser como Você.

Você me viu. Nunca soube ao certo o que Você viu em mim. Mas viu. Quando eu mesma não me via. Convidou-me a olhá-Lo e eu nunca mais quis contemplar outra coisa. E quanto mais Te via, mais via Você nos que eu nunca havia visto antes de Te ver. Você estava no faminto. Estava no injustiçado. No sem esperança. Você estava nas lágrimas de dor. Nas marcas. No choro. Estava na alegria. Na fé. Você estava no olhar. No serviço. No sorriso. Abraço. Na mão estendida. Você estava em mim.

Olhando para Você eu encontrei o contraditório. Ao invés de ter, Você me convida a dar. Ao invés de conforto, Você me convida ao abandono. Ao invés da vingança, Você me convida a oferecer o outro lado do rosto. Ao invés de máscaras, Você me convida à nudez. Ao invés da caridade, Você me convida a amar. Ao invés da vida, Você me convida à cruz. E se é lá onde Te encontro; então eu irei. Porque na verdade, tudo só começa quando resolvo abraçá-la. E quando olhar para a Sua cruz e Te ver, ressurreto, verei também as cicatrizes que Você carrega por amor. Suas mãos rasgadas e transpassadas. Verei sua pele surrada, sofrida e marcada, que carrega a lembrança das feridas e torturas que Você suportou. Verei Seus pés com os buracos, que um dia, dois pregos perfuraram. Verei as recordações de um sangue puro, que foi derramado ontem e que é derramado agora. O sangue que deveria ter sido meu.  Nada seria mais justo. Afinal, ‘aqui se faz, aqui se paga’, não é? NÃO. Não é assim com Você. Você me convida a partilhar do mesmo sangue. Do Seu próprio. Mas no momento em que aceito a transfusão, o Seu sangue passa a correr nas minhas veias. A Sua vida está em mim.  Como eu poderia, então, ser a mesma de antes? Se aceito o Seu sangue, passo a tomar a Sua forma. Se Você é santo, humilde, fiel, bom, manso, justo, correto… Então eu também serei. Sei que talvez seja difícil, porque dentro de mim algo berra e esperneia para continuar a ser como sou agora. É mais confortável. Mas não é quem eu devo ser. Não é para isso que Você me convida.

Você me convida a estender a mão para rostos abatidos que clamam por mais do que apenas comida.  Convida-me a enxugar lágrimas de dor, tristeza e falta de esperança, de quem clama por mais que lenços. Convida-me a sorrir para sorrisos gastos e acariciar peles rachadas, que clamam por mais que atenção. Você me convida a emprestar o colo para princesas e super-heróis. A me importar com gente de olhares vazios e corações frios, que clamam por mais que só um abraço. Você me convida a abraçar gente com cheiro de banho. E gente que não tem o luxo de ter um. Convida-me a amar gente fantasiada de felicidade.  A comer com gente que só guarda na memória o gosto da comida. Gente que sente frio. Gente que sente sede. Que sente fome. Que sente falta. De Alguém. De Você.

Você me convida a contar sobre Você.

Contar que Você me salvou. Me amou. Se importou. Me viu. E por ter me visto primeiro, eu posso Te ver agora, e através de Você ver todas as outras coisas. Quem mais eu poderia desejar passar o resto da minha vida? Quem mais poderia dar vida e sentido a tudo? Se só existe vida através da Sua vida. Do Seu sangue. Sangue que me abraça, me acaricia, que me toma pela mão e me leva para a cruz. Todos os dias. Até o dia em que não precisarei mais imaginar como é o Seu rosto, porque Te verei com os meus próprios olhos. Sorrirei. Ouvirei a Sua voz e sairei correndo só para Te mostrar, que assim como Você, também tenho cicatrizes que carrego por amor. Cicatrizes de amor por Você.

 

 

 

 

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