A Cidade Agridoce – 464 anos de São Paulo

Viver em São Paulo é escolher o caos. É fazer da imprevisibilidade rotina. Da pressa uma valsa entre calçadas e metrôs lotados. É ver uma construção abandonada e achar beleza nela. É presenciar as quatro estações em um único dia. É aceitar a confusão urbana e o meio-termo entre amor e ódio.

Ela é terra da garoa. Selva de Pedra. Sampa para os íntimos e casa para os paulistanos. É falta de amor para o Criolo. E de acordo com Chico Buarque, onde se é roubado na Praça Clóvis.

São Paulo é o paraíso das coisas excêntricas. Ela tem uma rua Direita, que é torta. Uma rua Formosa, feíssima. Uma rua das Palmeiras sem palmeiras. Tem a Consolação na Paulista e a Paulista na Consolação. E o maior viaduto dessa terra do café se chama viaduto do Chá.

A única cidade em que se vê bem-te-vis e sabiás cantando em meio aos fios que, de tão presentes em cada esquina, viraram as veias da cidade. Em que se vê ipês rosas, amarelos, roxos e brancos em meio a ruas de asfalto. E onde se pode escolher entre ir em museus, livrarias, cadeias, botequins, restaurantes e orquestras sinfônicas tudo no mesmo fim de semana.

É a cidade que oferece, além do panorama de grafites em meio aos edifícios cinzas, uma paisagem humana. Negros, brancos, mulatos e orientais. Pernambucanos, paraenses, gaúchos, bolivianos, europeus, asiáticos e africanos.  A cidade acolhe a todos. Afinal já dizia Ria Lee: “São Paulo recebe terráqueos de todas as partes do universo. Quem sobrevive em Sampa tira Bagdá de letra”.

Mais que tudo é o lugar dos paulistanos. Os “deixa a esquerda livre”, neuróticos por rapidez. Que consideram que atraso só é atraso 10 minutos depois do próprio atraso. Porque paulistano raiz é aquele que vai para todo canto de metrô e busão. Também são os que fogem para o mar em busca de um pouco de silêncio. Mas que sempre sedem a saudade e voltam para a balbúrdia paulistana.

Viver em São Paulo é andar em asfalto gasto, nas calçadas de azulejos preto e branco. É encontrar beleza nos dias chuvosos com jazz de rua e violino no metrô. É viver com seres inquietos e fazer parte deles. É escolher viver no caos e ser feliz por ficar. É sentir, ao mesmo tempo, o bom e o doloroso, o doce e o amargo.

Quer mais textos literários? Vem dar uma olhada nessa crônica incrível.

Larissa Iole de Freitas

Paulistana propensa a sonhar demais em meio a realidade. Apaixonada por histórias novas, café(s), bons livros e uma boa playlist que acompanhe isso tudo.