A aparência da perfeição

A aparência da perfeição

30 anos. Eu já tenho 30 anos. Sou formada em medicina, tenho meu próprio consultório de psiquiatria. Moro em um duplex de luxo, tenho um closet lotado de roupas e sapatos Chanel. Um namorado dono de uma das maiores empresas do Brasil, e ainda não estou feliz. Qual é o problema comigo? Minha vida é o sonho de qualquer mulher no mundo.

Meus pais me contaram que, desde pequena, sempre odiei essa vida de glamour. Por eles serem médicos famosos, todos os fins de semana eu tinha que acompanha-los em algum evento com pessoas importantes. “Se comporte, filha. Sorria o tempo todo e lembre-se de todas as regras de etiqueta”, mamãe sempre dizia e a minha careta era a mesma toda vez.

A minha pergunta é: se eu que desde criança sempre odiei viver assim, por que tomei o mesmo rumo dos meus pais? Talvez pela pressão? Pelo conforto? A insegurança? A acomodação? Ou por ser o caminho mais fácil? Já passam das 4h45 da madrugada, estou deitada tentando dormir e essas perguntas não param de surgir em minha cabeça.

Quando foi que eu me tornei tão superficial? Queria tanto me aventurar, encontrar um novo amor, alguém que realmente me causasse borboletas no estômago e me fizesse querer largar tudo para viver só de amor.

É engraçado, as pessoas passam a vida toda atrás de dinheiro, pisando nos outros por pura ambição. Elas não imaginam como é estar no topo e o vazio de ter tudo, mas sentir como se não tivesse nada. A felicidade não está, nem nunca estará em bens materiais. Quando vão enxergar isso? 

As maiores taxas de suicídio são nos países ricos. Não deveria ser o contrário? Aqueles que não têm nada deveriam ser tristes, sem esperança, mas não, os que tem pouco são os que mais têm um sorriso estampado no rosto, os que pouco reclamam e os que mais sabem dar valor a tudo que possuem. Sinto vergonha toda vez que me pego reclamando sem motivo.

Mas, infelizmente, minha vida é essa. Isso não é um filme no qual a mocinha rica vai conhecer o mundo e descobrir a felicidade. Estou destinada à superficialidade, já tracei meu caminho e agora é tarde para voltar atrás.

 O sono toma-me de vez e a última coisa que consigo pensar antes de fechar os olhos é: “de que adianta o homem ganhar o mundo e perder a sua alma? ”.